Monday, March 08, 2010

Oeiras, Sto. Amaro e S. Julião da Barra - A Procissão do Senhor dos Navegantes, a polícia de trânsito e eu.

Fotografia: Gonçalo Afonso Dias. Santo Amaro de Oeiras, 2010-03-07

Desde que vivo em Oeiras(primeiro em Paço de Arcos, agora em santo Amaro), tenho acompanhado e fotografado, sempre que possível, as principais festas e cerimónias públicas que por cá acontecem.
Neste blogue anunciei e divulguei, por diversas vezes, tanto os eventos (incluindo os itinerários) como as respectivas fotografias.
Assim aconteceu no ano passado aquando da realização desta mesma procissão ou aquando do Desfile Pombalino, também no verão de 2009.
Aqui escrevi também, sem qualquer linha editorial ou particular interesse, de lojas que me encantam (e cujo bom gosto gostava de ver multiplicado...), de ruas do Centro Histórico,
de situações que, enquanto cidadão, entendi alertar - e foram atendidas - e outras que nem por isso.
Escrevi sobre política, sobre Isaltino, sobre a sociedade, enfim, um pouco sobre tudo o que por Oeiras se passa, naturalmente muito limitado pelo tempo que as minhas actividades de arquitecto e de fotógrafo "impulsivo" e amador me deixa.

Mas o título deste post é a anual Procissão do Senhor dos Passos.
Este ano, contrariamente aos anteriores publico aqui apenas uma única fotografia a acompanhar um protesto, desabafo, constatação, o que quiserem...
Este ano não tive tempo de acompanhar a procissão e fiquei limitado à minha varanda e ao que daí poderia fotografar.
Para um fotógrafo um evento como esse transcende em muito a sua própria origem (neste caso religiosa) encontrando com a particularidade do seu olhar infinitos motivos de interesse, nomeadamente nas pessoas que, nessas alturas, transmitem através das expressões corporais e faciais, sobretudo em grupo, a essência da celebração.

Depois de escolher a objectiva mais adequada para o que pretendia fazer, depois das habituais "afinações" da máquina, comecei a fotografar, ainda a procissão vinha no princípio da rua.
Em baixo, a regular o trânsito, cortado, para o efeito, no cruzamento junto à minha casa, estavam 3 agentes da polícia de trânsito; 1 motorizado e dois a pé.
Cumpriam, por isso as suas funções - regular o trânsito.
Eu, cumpria a minha vontade, livre, na minha varanda, na minha casa - fazer fotografia, cobrir o acontecimento.
Mas por pouco tempo...
O chefe dos polícias, que aqui me absterei de reproduzir o nome escrito na farda, ao sentir-se eventualmente fotografado também, (que crime!) sem qualquer cerimónia e em termos mais próprios de um indigente, dirigiu-se a mim, (da rua onde estavam muitas pessoas, incluindo vários fotógrafos) e perguntou : (... Ouça lá! Não sabe que não se podem tirar fotografias assim sem mais nem menos?!)
Eu chamei-lhe, desde logo, à atenção para a forma mal-educada e agressiva como se estava a dirigir a um cidadão, que nada o justificava, etc, etc... mas para o polícia de bigode isso pouco importava... disse-me mais qualquer coisa sobre eu nem a risca branca da passadeira saber ver, olhou-me com olhos ameaçadores tipo "se t'apanho ó malandreco...", meteu-se na viatura da polícia e seguiu.
Confesso que não tirei muitas mais fotografias. Não pela atitude ou pela provocação do ignorante de farda vestida.
Apenas porque de repente perdi o gosto. Lembrei-me das histórias que o meu pai me contava sobre ser preso por fotografar um mendigo... ou ter de fotografar um polícia às escondidas, de costas...
Pois... era nos idos de cinquenta e tal...
No tempo do fascismo.
No tempo do medo.
Num tempo que, cada vez mais, todos os dias, em pequenas e grandes coisas, anuncia o seu sinistro regresso.

PS: pelo meu pai, anti-fascista desde jovem, conheceu e enfrentou
a "bufaria" e nunca se calou. Até ao dia da sua morte.

2 comments:

alma said...

Gonçalo,
não leve a mal:)
o homem era feio ficou com medo de ficar mal na fotografia :)

AM said...

não ficou mal na fotografia, ficou mal no retrato