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Thursday, August 23, 2012

A Cara deste País (2)

 
 
Fotografia: Gonçalo Afonso Dias, S. Pedro do estoril, 08/2012
 
Esta é a segunda fotografia que aqui publico deste senhor – o Sr. João
Na primeira reportei essencialmente a situação deste homem atirado para a rua – A Rua do Murtal - onde trabalho todos os dias em S. Pedro do Estoril, e a minha revolta perante a indiferença atroz da nossa sociedade com estas pessoas.
Nesta imagem fotográfica o foco está nas mãos do João, deixando num plano menos focado a sua cara, a sua identidade. As mãos cruzadas sobre o peito numa gesto de resignação, de desistência.

Da janela do meu atelier vejo-o todos os dias, a todas as horas. Vejo as pessoas a passarem no passeio desabrigado que ele adoptou como “casa, a passarem por ele sem olhar, como se deu saco de lixo se tratasse. Outras param mas não é para olhar para ele… observam atentamente uma pequena obra que ali está a ser feita a dois passos…
Ontem enquanto almoçava no restaurante que referi no resumo da primeira fotografia que lhe fiz não consegui desviar o olhar deste homem com cara de fome e de morte.

Não consegui comer e desabafei com o meu parceiro de almoço – Já viste? Estamos aqui a comer e à nossa frente está um homem que já não sabe o que isso é há muito tempo.
O calor era muito. A roupa que ele veste – a única que tem – é quente, é de inverno…
Dia após dia tenho tentado a aproximação, sempre difícil, a este senhor com a intenção de conseguir falar com ele, de perceber o que ele sente e como o poderei ajudar.
Saí do restaurante e deixei o prato como me foi servido… Comprei na mercearia do Armando uma garrafa de água para o tentar hidratar já que o sol e o álcool o estavam a secar.

Cheguei-me a ele. Chamei-o pelo nome. Abriu os olhos numa expressão de espanto mas de medo também. Molhei-lhe a cabeça como se faz a uma criança. Despertou.
Ao mesmo tempo passava um sujeito que aparentemente sabia quem ele era e que exclamou – “Com água ainda o mata! Dê-lhe vinho que é o que ele quer !”.
Respondi-lhe com a dureza que se impunha e principiei a falar com o Sr. João.
Perguntei-lhe se se sentia bem, disse-lhe que não podia ficar ali ao sol, que isso o podia matar.

Foi acordando aos poucos, ao ritmo das minhas palavras. Pediu-me um cigarro e disse-me que tinha fome. O meu companheiro e meu colaborador que estava comigo foi comprar uma sandes de fiambre à mercearia. Comeu-a devagar e acedeu ao meu pedido de ir dando pequenos goles de água – pequenos porque aquele estômago vazio não suportaria mais do que isso.

Depois falou… Mesmo empasteladas pelo vinho as palavras que disse eram de um homem com um vocabulário desenvolvido, as frases bem construídas, os verbos nos tempos correctos. Um homem que leu, que estudou, que reflectiu sobre a vida antes de se cansar dela.
Perguntou-me o que queria… Quero ajudar-te, disse-lhe. Mas para isso tens de me deixar ajudar. Falou em Deus, com fé, como se fosse (e é a sua derradeira fuga). Enquanto falávamos pedia-me cigarros que eu negociava com pequenos goles de água.
Perguntei-lhe a idade. Começou a chorar…
52 anos, apenas mais 4 do que eu.
- Chora João, faz bem – eu também choro, não é vergonha nenhuma.
Falou da guerra, falou dos filhos… Falou dos amigos que já não tinha…
Agora tens, disse-lhe já emocionado. Amanhã quero ver-te um bocadinho melhor, pedi-lhe.
O tempo passou, as pessoas também, indiferentes mas admiradas por me verem sentado ao lado dele.
Um homem na condição do João não se consegue ajudar com bens, com roupas ou dinheiro.
Apenas a palavra, a persistência, a atenção que não tem, podem levá-lo a ganhar forças para levantar a cabeça e seguir em frente. Assim o espero.

Tuesday, July 17, 2012

Etnias de Portugal: Os ciganos

A COMUNIDADE CIGANA

"Originários da Indía, os primeiros ciganos terão começado a entrar na Europa por volta do século XII. As primeiras notícias da sua presença em Portugal datam da segunda metade do século XV.

Algumas dezenas de anos depois de se instalarem em Portugal, já os ciganos estavam identificados com a imagem negativa que irá perdurar até aos nossos dias e que continuamente será evocada para os reprimir ou expulsar. A comunidade cigana resistiu a tudo e aqui permaneceu.

Hoje enfrenta um novo e decisivo desafio: a integração imposta em nome do progresso e dos direitos humanos."


DISCRIMINAÇÃO CONTRA OS CIGANOS

"Conselho da Europa recomenda a Portugal medidas de combate à discriminação da comunidade cigana, que tem maiores dificuldades de acesso à habitação, emprego, bens e serviços e educação das crianças.

A situação das comunidades ciganas em Portugal tem-se agravado nos últimos anos, assumindo contornos particularmente preocupantes no acesso à habitação, emprego, bens e serviços.

A conclusão consta de um relatório elaborado pela Comissão Europeia contra o Racismo e a Intolerância (ECRI), um orgão do Conselho da Europa para o combate ao racismo, xenofobia, anti-semitismo e intolerância.

Apresentado hoje, quinta-feira, em Lisboa, por Fernando Ramos, membro da ECRI para Portugal, o relatório recomenda "vivamente" às autoridades portuguesas que, no que diz respeito à habitação, "se debrucem sobre as comunidades que vivem em situações precárias, para as realojar de maneira adequada".

Outra recomendação é no sentido de serem investigadas as alegações de "comportamentos abusivos", como os "despejos arbitrários", e "tomadas as medidas necessárias para pôr fim a estas situações".


O relatório recomenda também a Portugal que ajude a comunidade cigana a encontrar emprego, proibindo condutas discriminatórias dos empregadores, que combata a discriminação no acesso a locais públicos, bens e serviços, defendendo a punição nos casos em que tal se verifique."






Fotografias: Gonçalo Afonso Dias, Loures, Portugal, 07/2012



Monday, July 16, 2012

Pela Estrada Fora


Fotografia: Gonçalo Afonso Dias, Algures entre Luanda e Lobito, Angola, 07/2012

Sunday, July 15, 2012

Saturday, July 14, 2012

Quitandeira



Fotografia: Gonçalo Afonso Dias
Luanda, Angola, 07/2012


QUITANDEIRA

A quitanda.
Muito sol
e a quitandeira à sombra
da mulemba.

- Laranja, minha senhora,
laranjinha boa!

A luz brinca na cidade
o seu quente jogo
de claros e escuros
e a vida brinca
em corações aflitos
o jogo da cabra-cega.

A quitandeira
que vende fruta
vende-se.

- Minha senhora
laranja, laranjinha boa!

Compra laranja doces
compra-me também o amargo
desta tortura
da vida sem vida.

Compra-me a infância do espírito
este botão de rosa
que não abriu
princípio impelido ainda para um início.

Laranja, minha senhora!

Esgotaram-se os sorrisos
com que chorava
eu já não choro.

E aí vão as minhas esperanças
como foi o sangue dos meus filhos
amassado no pó das estradas
enterrado nas roças
e o meu suor
embebido nos fios de algodão
que me cobrem.

Como o esforço foi oferecido
à segurança das máquinas
à beleza das ruas asfaltadas
de prédios de vários andares
à comodidade de senhores ricos
à alegria dispersa por cidades
e eu
me fui confundindo
com os próprios problemas da existência.

Aí vão as laranjas
como eu me ofereci ao álcool
para me anestesiar
e me entreguei às religiões
para me insensibilizar
e me atordoei para viver.

Tudo tenho dado.

Até mesmo a minha dor
e a poesia dos meus seios nus
entreguei-as aos poetas.

Agora vendo-me eu própria.
- Compra laranjas
minha senhora!
Leva-me para as quitandas da Vida
o meu preço é único:
- sangue.

Talvez vendendo-me
eu me possua.

- Compra laranjas!


(Agostinho Neto)






Tuesday, May 15, 2012

Benguela, 2004




Fotografias: Gonçalo Afonso Dias
Benguela, Angola, 2004



Monday, May 14, 2012

Monday, April 30, 2012

AS PALAVRAS

São como um cristal,

as palavras.

Algumas, um punhal,

um incêndio.

Outras,

orvalho apenas.



Secretas vêm, cheias de memória.

Inseguras navegam:

barcos ou beijos, as águas estremecem.



Desamparadas, inocentes,

leves.

Tecidas são de luz

e são a noite.

E mesmo pálidas

verdes paraísos lembram ainda.



Quem as escuta? Quem

as recolhe, assim,

cruéis, desfeitas,

nas suas conchas puras?

(Eugénio de Andrade)



Fotografia: Gonçalo Afonso Dias
Luanda, Angola, 2008

Friday, April 20, 2012

FOTOGRAFIA

"Filho de um Deus Menor"
Luanda, Angola, 2004

«É um dos flagelos da guerra. As vítimas das minas anti-pessoais "semeadas" um pouco por todo o país. Apesar dos enormes meios técnicos e humanos (nacionais e internacionais) empenhados na desminagem do território, em muitos sítio, sobretudo no interior desse grande país, essas minas traiçoeiras continuam a fazer muitas vítimas.»

Braga, 2009


"Noites de Oeiras". Oeiras, 2009


"Noites de Faro". 2005



"A rapariga de Feira"
Lamego, 2009


"Face Oculta"
Paço de Arcos, 2008

Fotografias: Gonçalo Afonso Dias





Thursday, February 23, 2012

Fotografia - " da Técnica"



Fotografia: Gonçalo Afonso Dias, Luanda, 2007


Da técnica
 (Texto para o "Olhares.com)

Publico esta fotografia para, mais uma vez e com todo o gosto, aqui deixar algumas palavras (inúteis, porventura...) sobre fotografia.
Desta vez abordo a questão da "Técnica".
É um tema recorrente em todas as formas de expressão artística.
Muitas vezes vêm-me à memória as sábias palavras de um pensador de que disse o seguinte: «A arte sem técnica não passa de um mero capricho».
É, sem dúvida uma frase forte, eventualmente desmotivadora (para alguns) mas que encerra um profundo conhecimento.
Partilho esse pensamento de uma forma menos literal, mas partilho.
A arquitectura - a minha área profissional, é talvez o que me melhor clarifica o que antes escrevi. As ideias podem ser geniais (embora não acredite em génios) mas se não forem metodicamente acompanhadas de conhecimentos técnicos alargados quando chega o "nascer da obra" acontece a "desgraça"... Costumo dizer aos meus amigos e colaboradores que a "Escola" é apenas um ponto de partida. A verdadeira Universidade, em arquitectura, é a "obra". Aí, com humildade, sem sobranceria, aprende-se a profissão - com um carpinteiro, com um serralheiro, com os operários que vivem com a mão na massa.
Em fotografia, a técnica é importante. Quanto mais não seja para que a subvertamos intencionalmente, com propriedade, com técnica, claro.
Dissertar sobre a relevância da técnica na fotografia seria assunto para longas páginas de prosa e, não sou eu, com certeza, a pessoa mais indicada para o fazer.
Escolhi uma fotografia tecnicamente discutível, exactamente porque quero abordar este tema de um modo particular.
A técnica de cada um - aquela que melhor pode contribuir para que, cada um, (repito), possa, com maior destreza captar e transmitir o que lhe vai na alma.
Foco-me aqui essencialmente na "fotografia de rua", na fotografia espontânea, no fotojornalismo.
Excluo naturalmente deste comentário a fotografia feita em Estúdio pela sua especificidade.
O conhecimento das potencialidades da máquina e das objectivas que eventualmente temos é, desde logo fundamental. Testar, ensaiar, exercitar (mesmo em casa) é o melhor caminho para isso.
A fotografia é feita de luz - é o seu principal ingrediente.
Quando saio para fotografar na rua, tenho primeiro o cuidado de ver "de onde vem a luz". Esse exercício faz-me mudar frequentemente de um passeio para o outro.
Depois, e não menos importante, "o céu", as nuvens - um filtro espantoso da luz que nos chega.
Regular a máquina para as condições que intuo é o primeiro passo. Se estou a trabalhar com uma reflex que aguenta, sem prejuízo da qualidade, um valor ISO elevado (800 por ex.) e a luz é fraca ou disponho de uma objectiva de gama média ou baixa, necessariamente pouco "luminosa" (f:5,6, no limite) esse ISO coordenado com a abertura escolhida e com a correcta especificação do "tipo de luz" dá-me, normalmente, margem para disparar para "alvos" em movimento com alguma segurança.
Na fotografia urbana e mais concretamente no fotojornalismo é muito útil um corpo que permita vários disparos sucessivos. As expressões corporais, sempre em mutação, são, assim, mais facilmente captadas.
Não menos importante é a possibilidade de escolher o ponto de medição de luz.
A maneabilidade dessa função é, no meu entender, um dos aspectos mais decisivos na captação da imagem fotográfica. Ao fim de alguns milhares de fotografias "falhadas" já conseguimos, quase mecanicamente e sem perdas de tempo, seleccionar o "ponto" que melhor irá resolver a nossa interpretação da luz. Por exº, num ambiente nocturno (e para quem não usa flash, como eu, seleccionar o ponto mais negro é "meio caminho andado" para um resultado satisfatório.
O conhecimento e o à-vontade com que trabalhamos na edição das nossas fotografias é mais um conhecimento importante no momento do click - Sabemos, por ex. que determinadas insuficiências que constatamos com o olhar serão facilmente anuladas com a edição com que estamos rotinados e familiarizados.

Em suma: vale a pena entender os fundamentos técnicos da fotografia - A Luz, a Profundidade de Campo e o recorte que possibilita, o equipamento que temos, a edição que fazemos.
Uma boa objectiva é, muitas vezes, mais decisiva do que um corpo cheio de megapixéis.
Um abraço a todos e boas fotografias.

Fotografia: Luanda, 2007