Monday, September 29, 2008

Ao Volante


foto: gad. 2004


Ao volante do Chevrolet pela estrada de Sintra,
Ao luar e ao sonho, na estrada deserta,
Sozinho guio, guio quase devagar, e um pouco
Me parece, ou me forço um pouco para que me pareça,
Que sigo por outra estrada, por outro sonho, por outro mundo,
Que sigo sem haver Lisboa deixada ou Sintra a que ir ter,
Que sigo, e que mais haverá em seguir senão não parar mas seguir?

Vou passar a noite a Sintra por não poder passá-la em Lisboa,
Mas, quando chegar a Sintra, terei pena de não ter ficado em Lisboa.
Sempre esta inquietação sem propósito, sem nexo, sem conseqüência,
Sempre, sempre, sempre,
Esta angústia excessiva do espírito por coisa nenhuma,
Na estrada de Sintra, ou na estrada do sonho, ou na estrada da vida…

Maieável aos meus movimentos subconscientes do volante,
Galga sob mim comigo o automóvel que me emprestaram.
Sorrio do símbolo, ao pensar nele, e ao virar à direita.
Em quantas coisas que me emprestaram eu sigo no mundo
Quantas coisas que me emprestaram guio como minhas!
Quanto me emprestaram, ai de mim!, eu próprio sou!

À esquerda o casebre - sim, o casebre - à beira da estrada
À direita o campo aberto, com a lua ao longe.
O automóvel, que parecia há pouco dar-me liberdade,
É agora uma coisa onde estou fechadoQue só posso conduzir se nele estiver fechado,
Que só domino se me incluir nele, se ele me incluir a mim.

À esquerda lá para trás o casebre modesto, mais que modesto.
A vida ali deve ser feliz, só porque não é a minha.
Se alguém me viu da janela do casebre, sonhará: Aquele é que é feliz.
Talvez à criança espreitando pelos vidros da janela do andar que está em cima
Fiquei (com o automóvel emprestado) como um sonho, uma fada real.
Talvez à rapariga que olhou, ouvindo o motor, pela janela da cozinhaNo pavimento térreo,Sou qualquer coisa do príncipe de todo o coração de rapariga,E ela me olhará de esguelha, pelos vidros, até à curva em que me perdi.Deixarei sonhos atrás de mim, ou é o automóvel que os deixa?

Eu, guiador do automóvel emprestado, ou o automóvel emprestado que eu guio?
Na estrada de Sintra ao luar, na tristeza, ante os campos e a noite,Guiando o Chevrolet emprestado desconsoladamente,
Perco-me na estrada futura, sumo-me na distância que alcanço,
E, num desejo terrível, súbido, violento, inconcebível,
Acelero…
Mas o meu coração ficou no monte de pedras, de que me desviei ao vê-lo sem vê-lo,

À porta do casebre,
O meu coração vazio,
O meu coração insatisfeito,
O meu coração mais humano do que eu, mais exato que a vida.

Na estrada de Sintra, perto da meia-noite, ao luar, ao votante,
Na estrada de Sintra, que cansaço da própria imaginação,
Na estrada de Sintra, cada vez mais perto de Sintra,
Na estrada de Sintra, cada vez menos perto de mim…


"Ao Volante", Álvaro de Campos

5 comments:

Susana said...

Um poema cheio de conteúdo e significado para uma fotografia magnífica!

Anonymous said...

Pinta a manta mas não sujes o chão = não critiques o blogger senão ele censura-te.
Gosto disto, só falta um lápis azul.

Gonçalo Afonso Dias said...

Sr(a)anónimo(a),
Agradeço que volte a ler o texto que acompanhou a reabertura desta caixa de comentários pelo seguinte:
Penso que deixei bem claro que as criticas são, naturalmente, bem vindas. No entanto,existe uma diferença entre critica (pressupõe que se tem algo com conteúdo a dizer)e insulto ou mais simplesmente disparate sem qualquer sentido ou relevância para o tema ou post editado; aquilo que aqui precipitadamente acabou de fazer. Para que não fiquem dúvidas e porque não estou na disposição de alimentar polémicas irracionais deixo, não um desenho, mas o significado que tentou (no post errado) deturpar: Pinta a manta mas não sujes o chão = critica com toda a frontalidade, deixa a tua opinião sem rodeios, exerce a tua Liberdade de Expressão mas, repito - mas, mantendo a educação, o respeito, a lucidez e, tanto quanto possível a objectividade. Penso que é o minímo e são, com certeza as regras que qualquer cidadão gosta de ver cumpridas em sua casa.
Cumprimentos e volte sempre desde que tenha algo para dizer.
Quanto a este assunto, está encerrado e,se se repetir qualquer insinuação do género não usari nenhum lápis de cor mas o direito que tenho de manter as premissas que fiz questão de anunciar.

Anonymous said...

Tem toda a razão na resposta que deu ao anónimo.
Vamos ser bem comportadinhos e não sujar o tapete em casa alheia. Espero ter limpo bem os pés ao entrar.
Ah, onde estão as tintas e a manta?

Gonçalo Afonso Dias said...

Anonymous said... "(...)Ah, onde estão as tintas e a manta"?(...)

R:Por exº no blogue 'Arco-iris perdido em: http://pintar1a2manta.blog.com/2007/9/?page=2.
Já agora vale a pena ficar por lá algum tempo. E voltar.