Saturday, February 25, 2006

arquitectura - "contaminações"

Este post tem como motivação uma fotografia que tirei recentemente (2005) a um "grafiti" inscrito num edifício "meu", obra concluída em 1995 após o primeiro prémio de um Concurso Público lançado em 1991 para esse efeito que conquistei em parceria com a Arq. Daniela Antunes.
É um pretexto para abordar a possível comunhão entre a arquitectura e outros "ofícios" ou mesmo para questionar a capacidade que as obras têm de "aguentar" intervenções fortuitas, gratuitas ou imprevistas, próprias da passagem do tempo por elas.

Contou também, na fase do Projecto de Execução, com a valiosa experiência e aplicação do meu colega, arquitecto e amigo, Paulo Albuquerque.

As Residências de Estudantes do Instituto Politécnico de Coimbra [I.P.C.] - R1/R2 são um conjunto de dois edifícios semelhantes com uma capacidade total de 200 camas e localizam-se em S. Martinho do Bispo (Bencanta) ao lado da Escola Agrária.


Têm como “vizinho” mais relevante, do lado Sul, o cemitério local. Entre os dois existe uma estreita Ladeira (Ladeira do Saramago) onde estão ancorados os túneis em ponte que supostamente serviriam como acesso alternativo ao conjunto dos edifícios a partir das suas coberturas (que foram pensadas como espaços semipúblicos), o que na prática nunca funcionou por razões de gestão interna do Instituto que me ultrapassam.

Essas pontes em túnel, transformaram-se, por isso, (sobretudo após a "mutilação que lhes fosse feita na sequência de uma irresponsável imposição da Câmara Municipal de Coimbra [C.M.C.] ao I.P.C.)* numas entradas para "lado nenhum", ou, quiçá, para o "desconhecido", como o são sempre, para mim, as entradas para os cemitérios.

*A C.M.C., na altura não compreendeu que os limites do terreno foram "encurtados" pelo projecto, cedendo, desse modo uma faixa de cerca de 50 cm ao espaço público, para que os topos dos referidos "túneis em ponte" pudessem ficar salientes da vedação que conforma o lote (também imposta).
Para repor a “sua legalidade" a (C.M.C.) mandou amputar esses 50 cm às pontes já construídas, aniquilando (entre outras coisas) a lógica da modulação das chapas galvanizadas do revestimento...


Agora isso pouco importa. Não adianta "choramingar".
Ficou assim, e ponto final.
Este conjunto de edifícios está presentemente na fase final da sua primeira operação de conservação e recuperação. Algo pouco comum e que é de registar com muito agrado, num país onde normalmente só se cabimentam verbas para as obras, caindo depois no esquecimento a evidência de que as construções, (tal como as pessoas e os animais), "respiram", envelhecem, adoecem e carecem de "cuidados médicos" regulares.
No caso dos edifícios, uma pintura de dez em dez anos e uns "pensos rápidos" são o q.b. para manterem a sua "qualidade de vida", a sua dignidade, e também a dignidade de quem os promove.

Além dos arquitectos já nomeados que comigo tornaram possível este projecto, contámos com a participação do artista plástico português - João Louro, hoje um valor relevante interventivo e reconhecido internacionalmente no mundo das Artes Plásticas. Na altura (91) também a construir tranquilamente as bases para a sua carreira).
A participação ou a "contaminação" dos projectos que coordeno, por pessoas de diversas áreas (fora circuito fechado das relações ; cliente/arquitectos/engenheiros têm sido um processo corrente na minha pratica profissional.
Entendo que esses olhares, mais isentos e menos "viciados", são uma mais valia para o resultado final do trabalho, do mesmo modo que o são as nossas intimas experiências de vida, enriquecidas por tudo aquilo que vemos, lemos ou pelo que "passamos".
O caso particular da participação de artistas plásticos depende em grande parte dos desejos e objectivos para cada projecto.
Não é uma regra.
Contudo, quando acontece (como neste caso ou nas Residências do I.P.C. mais recentes - as R3, cor de laranja, no vale das Flores, no Pólo II da Universidade) a participação deste membro da equipa (o artista plástico) é entendida de um modo integrado, i.e.: não se resume à reserva de uma ou mais paredes para "pendurar uns quadros", mas a uma participação contínua e presente em todas as fases decisivas da concepção.
As obras de arte que ficam nos edifícios encontram, por isso, o seu espaço natural e a sua motivação muito antes de serem concretizadas.


Nestas residências, para além de uma participação critica e activa em aspectos que tinham a ver com a expressão plástica dos edifícios (equilíbrio de cores, por ex.) João Louro concebeu 2 painéis diferentes - um para cada residência), em tela, com o comprimento total das salas de convívio, onde através de uma "reciclagem" de figuras de banda desenhada muito características e reconhecíveis da época "pop" transmite aos jovens habitantes destas casas, de um modo inteligente e divertido, artigos fundamentais da Constituição Portuguesa - textos pouco conhecidos (a Constituição não será propriamente o livro de cabeceira preferido de um (a) jovem de 20 anos...) mas de conteúdo muito adequado, sobretudo se comunicado de um modo mais criativo e apelativo).


Também aqui cabe uma referência ao Politécnico de Coimbra, que tem vindo a acolher com entusiasmo esta fusão entre artes (voltámos a consegui-lo nas R3), "encaixando" com muito esforço, nas escassas verbas que o Ministério da Educação disponibiliza para a construção destes equipamentos, os custos inerentes à concepção, realização e montagem dessas obras.
fotografia da autoria de Fernando e Sérgio Guerra
As R3, compostas por 5 edifícios, têm um conjunto de 25 painéis diferentes em chapa de alumínio serigrafada (5 por residência) também de João louro, inspirados nos grafittis de New York.
fotografia da autoria de Fernando e Sérgio Guerra

Esta prática, que se vem consolidando, começa também a ser uma espécie de "imagem de marca" da instituição que só a valoriza culturalmente.

Voltando ao mote deste post:
Quando me deparei, numa ocasional passagem pelas R1/R2 (de vez em quando visito os meus "filhos de betão") com este curioso e simultaneamente assustador (dado o contexto/proximidade ao cemitério, fiquei agradavelmente surpreendido.
Afinal, tantos anos depois, a obra ainda "mexia" e suportava intervenções que, na minha opinião em nada a prejudicam. Este trabalho espontâneo de um autor desconhecido integrou-se plenamente no suporte cúbico em chapa, virado para o cemitério, e retirou dessa forma e desse contexto o melhor partido.

Tudo farei para a sua preservação junto do meu cliente. O meu maior receio é que, mais uma vez, a C.M.C. "reponha a legalidade" com um balde de tinta branca texturada e um rolo barato comprado no AKI.

5 comments:

arqportugal.blogspot.com said...

Este azul faz-me lembrar algo :D

Gonçalo Afonso Dias said...

A sério?!
Na altura, inspirámo-nos no azul "espanta espíritos" tão corrente no Alentejo... Fizemos muitos ensaios.
A população local não aceitou a ideia. Foi feito um "abaixo-assinado" pela junta de freguesia a exigir que o I.P.C. mudasse a cor para um...branco.
Um jornalista de um diário local, deveras inspirado, escrevinhou uma critica a esta obra, adjectivando-a de "pústula arquitectónica"...
Pois. Este azul também me faz lembrar muitas coisas...

AM said...

Bonjour Tristesse...

j7rxhe32ug said...

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Roma said...

A mí me encantan esos edificios, me gustan muchísimo.