Showing posts with label Sérgio Godinho. Show all posts
Showing posts with label Sérgio Godinho. Show all posts

Saturday, May 09, 2015

CÃO RAIVOSO



CÃO RAIVOSO (1)






Cão Raivoso
Mais vale ser um cão raivoso
do que um carneiro
a dizer que sim ao pastor
o dia inteiro
e a dar-lhe de lã e da carne e da vida
e do traseiro
mais vale ser diferente do carneiro
um cão raivoso que sabe onde ferra
olhos atentos e patas na terra.

Viva o cão raivoso
tem o pelo eriçado
seu dente é guloso
e o seu faro ajustado
Cão raivoso, cão raivoso, cuidado.

Mais vale ser um cão raivoso
que um caranguejo
que avança e recua e depois
solta um bocejo
e que quando fala só se houve a garganta
no gargarejo
mais vale não ser como o caranguejo
um cão raivoso que sabe onde ferra
olhos atentos e patas na terra.

Viva o cão raivoso
tem o pelo eriçado
seu dente é guloso
e o seu faro ajustado
Cão raivoso, cão raivoso, cuidado.

Mais vale ser um cão raivoso
que uma sardinha
metida, entalada na lata
educadinha
pronta a ser comida, engolida, digerida
e cagadinha
Mais vale ser diferente da sardinha
um cão raivoso que sabe onde ferra
ferra fascistas e chama-lhe um figo
olhos atentos e patas na terra.

Viva o cão raivoso
tem o pelo eriçado
seu dente é guloso
e o seu faro ajustado
Cão raivoso, cão raivoso, cuidado.

Mais vale ser um cão raivoso
dentes à mostra
estar sempre pronto a morder
e a dar resposta
a toda e qualquer podridão escondida
dentro da crosta
dentro da crosta das belas ideias
gato escondido de rabo de fora
dentro da crosta das belas ideias
gato escondido de rabo de fora.

(Sérgio Godinho, 1974)

Desenho: Gonçalo Afonso Dias, 09 Maio 2015
Técnica mista sobre papel (20x15cm)

Wednesday, February 22, 2012

Cá se vai andando, c'o a cabeça entre as orelhas. Cá se vai andando c'o a cabeça entre as orelhas...



"Vamos andando..."
Fotografia: Gonçalo Afonso Dias, 2008


Coro Das Velhas 


Ia eu pelo conselho de Caminha

quando vi sentada ao sol uma velhinha

curioso, uma conversa entabulei

como se diz nuns romances que eu cá sei



Chamo-me Adozinha, disse, e tenho já

os meus 84 anos, feitos há

mês e meio, se a memória não me falha

mas inda vou durar uns anos, Deus me valha



Com esta da austeridade, meu senhor

nem sequer da para ir desta pra melhor

os funerais estão por um preço do outro mundo

dá pra desistir de ser um moribundo



Rabugenta, eu? Não senhor

eu hei-de ir desta pra melhor

mas falo pelos que cá deixo

não é por mim que eu me queixo



Ó Felisbela, ó Felismina

ó Adelaide, ó Amelinha

ó Maria Berta, ó Zulmirinha

vamos cantar o coro das velhas?



Cá se vai andando

c'o a cabeça entre as orelhas



Não sei ler nem escrever mas não me ralo

alguns há que até a caneta lhes faz calo

é só assinar despachos e decretos

p'ra nos dar a ler a nós, analfabetos



E saúde, eu tenho p'ra dar e vender

não preciso de um ministro para ter

tudo o que ele anda a ver se me pode dar

pode ir ele p'ro hospital em meu lugar



E quanto a apertar cinto, sinto muito

Filosofem os que sabem lá do assunto

Mas com esta cinturinha tão delgada

Inda posso ser de muitos namorada



Rabugenta, eu? Não senhor

eu hei-de ir desta pra melhor

mas falo pelos que cá deixo

não é por mim que eu me queixo



Ó Felisbela, ó Felismina

ó Adelaide, ó Amelinha

ó Maria Berta, ó Zulmirinha

vamos cantar o coro das velhas?