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Monday, February 17, 2014

Até sempre pai!


Até sempre pai!

Há exactamente quatro anos (17/02/2010) perdi (perdemos) o meu pai - Carlos Afonso Dias.
Perdi, também, uma grande parte de mim, a minha verdadeira referência..
Hoje, apercebo-me como nunca antes da dimensão dessa perda...
Mas, para além do pai que perdi, perdemos todos; (aqueles que prezam a cultura, a ciência, a arte e, nomeadamente a fotografia) um exímio fotógrafo, geógrafo e desenhador.



Um homem tímido, reservado, culto, crítico, mas, acima de tudo, com um sentido de humor por vezes intangível. A sua obra, quer fotográfica, quer de desenhador, revela essa sua faceta de um modo inequívoco.
Hoje, não vou escrever muito sobre o meu pai (para além daquilo que tenho vindo a escrever ano após ano no meu blogue e aqui (menos) também.
Deixo aqui apenas a transcrição de uma dedicatória que o seu grande amigo de sempre e companheiro de lides fotográficas - Gérard Castello-Lopes - me deixou no livro que acompanhou a sua exposição no CCB (Abril de 2004 «Gérard Castello - Lopes - Oui Non »:



(...)Para o Gonçalo, filho do homem que me ensinou, entre outras coisas, a DÚVIDA.(...)

O Gérard também já anda "em parte incerta"...
Mas, nessa breve e simpática dedicatória, disse tudo aquilo que também a mim uma das coisas mais categóricas que o meu pai me ensinou: a Dúvida, sempre a dúvida.

Até sempre, pai.

Para aqueles, e sei que são poucos, que estão interessados em conhecer a "Geração esquecida dos anos 50's, a que pertenceu CAD, deixo aqui alguns atalhos.:

http://goncaload-artes.blogspot.pt/search/label/Carlos%20Afonso%20Dias
http://goncaload-artes.blogspot.pt/2010/02/carlos-afonso-dias-1930-2010.html
http://alexandrepomar.typepad.com/alexandre_pomar/2008/09/carlos-afonso-dias-1.html
http://digitarq.cpf.dgarq.gov.pt/details?id=39151
http://www.fundacaoplmj.com/detalhe.php?aID=4219#showDetail
http://artephotographica.blogspot.pt/2008/10/carlos-afonso-dias.html
http://f508.com.br/morre-carlos-afonso-dias/
http://malomil.blogspot.pt/2012/01/carlos-afonso-dias-1930-2010.html
http://www.almedina.net/catalog/product_info.php?products_id=6168
http://www.publico.pt/cultura/noticia/carlos-afonso-dias-19302010-um-poeta-da-fotografia-portuguesa-1423380

(…) Do meu pai, Carlos Afonso Dias (C.A.D.) tem-se, após a sua morte, escrito o possível. Para além de alguns (muito poucos) testemunhos dos também muito poucos que souberam conhecê-lo, citam-se generalidades maioritariamente acerca da sua faceta mais conhecida - a de fotógrafo. C.A.D. era também fotógrafo e não foi nenhuma galeria que o "descobriu". Era daqueles homens já raros, muito raros que, possuidores de um vasto conhecimento da vida e dos homens, senhor de uma imensa cultura, tinha um carácter onde a humildade e a honestidade intelectual o impediam de se por "em bicos dos pés" para ser notado, convidado, elogiado ou mesmo homenageado. A dúvida, a par de um sentido estético transversal a todos os seus gestos, levavam-no à procura, a uma incessante procura de conhecimento, de novos caminhos, de outras abordagens. Carlos Afonso Dias não estava ,(li algures), fascinado com o "mundo do digital". Não o renegou é certo, mas também pouco investiu nele porque como uma vez desabafou "nunca sai aquilo que eu vejo" C.A.D. viveu e trabalhou num país onde os artistas são desprezados em vida. Para além do fotógrafo, morreu, poucos o sabem, um exímio e irónico desenhador da vida. Até já pai. (…)


Sunday, February 17, 2013

Tributo ao meu pai


Fotografia: Gonçalo Afonso Dias


Cumprem-se hoje 3 anos que partiu o homem que me ensinou tudo o que sou. Não há um dia que não pense nele e sei que esteja onde estiver não há um dia que ele não pense em nós.

Tuesday, September 04, 2012

Tributo ao meu Pai

Carlos Afonso Dias faria hoje 82 anos se não se tivesse "cansado de viver todos os dias".
 
Aqui fica o meu tributo com um grande beijo para a minha mãe.
 
 

Desenho: Gonçalo Afonso Dias, 04 de Setembro de 2012

 "Da infinita dificuldade que tenho em distinguir o que sou da memória que tenho de ti."

Thursday, May 17, 2012

Fiquei Eu...




(Fotografia: Gonçalo Afonso Dias. Nazaré, 2004)

Antes de o Turismo ter "engolido" a Nazaré, enquanto os homens estavam no mar era costume (há fotografias notáveis disso) as mulheres perfilarem-se, sentadas, junto a uma parede virada para para a praia. Eram sempre muitas, com as suas rezas, com os seus temores. 



(Fotografia: Carlos Afonso Dias. Nazaré, 1959)

Friday, April 27, 2012

O meu pai teve um !



Fotografia: Gonçalo Afonso Dias

Um Ford Anglia de 1949, impecável, estacionado numa rua do Porto.

« O automóvel como forma simbólica» - "Diz-se que a indústria não nos vende somente um produto, um objecto, mas também uma ideia, um sonho, uma concepção do mundo, um distintivo da nossa condição social para usar na lapela. Uma embalagem de luxo, uma "cosmética" sofisticada para um objecto que se oferece, do mesmo modo que sugere uma apreciação da pessoa a quem a oferta se destina, classifica-nos simultaneamente junto dela. A publicidade tende a fazer-nos acreditar que adquirir aquele determinado tipo de automóvel, um dos objectos-símbolo por excelência , é como pendurar um diploma de curso à porta de casa.

A cilindrada do automóvel, a sua carroçaria, o seu "design" são outros tantos indicativos e mensagens do nosso sucesso no mundo.

E é também isto que a publicidade vende.
No preço "chave na mão" está incluída a aventura romântica, a facilidade da conquista, mas também a eficiência e o valor da técnica, o prestígio, a agressividade, o luxo.

Também em relação ao automóvel, como já vimos em relação a todos os objectos em geral, o pormenor pode ser muito importante. O pormenor da roda e do guarda-lamas, aqui, não é só característico de uma maneira de construir, do estilo de uma época, como, precisamente por isso, descritivo e revelador, que pode ser usado - tal como acontece na fotografia de publicidade, de moda e na reportagem - como expediente linguístico destinado a dar, com grande eficácia comunicativa, a parte pelo todo.»
in: " A Fotografia" - Antonio Arcadi. Edições 70. 







Sunday, March 25, 2012

EU

«Eu não sou nada nem ninguém - sou um pouco de tudo o que quero ser, porém.»
(GAD, 03-2012)


Em cima à esquerda: Benguela, Angola, 1967 - Fotografia de Carlos Afonso Dias.
Em cima à direita: auto-retrato no atelier - S. Pedro Estoril, 2008
Em baixo: auto-retrato, Porto 2010



Eu

Eu sou a que no mundo anda perdida,
Eu sou a que na vida não tem norte,
Sou a irmã do Sonho, e desta sorte
Sou a crucificada... a dolorida...

Sombra de névoa ténue e esvaecida,
E que o destino, amargo, triste e forte,
Impele brutalmente para a morte!
Alma de luto sempre incompreendida!

Sou aquela que passa e ninguém vê...
Sou a que chamam triste sem o ser...
Sou a que chora sem saber porquê...

Sou talvez a visão que Alguém sonhou,
Alguém que veio ao mundo pra me ver
E que nunca na vida me encontrou!


(Florbela Espanca)  



Nota: "Annemarie Schwarzenback (1908-1942) efectuou, ao longo da sua breve vida, reportagens fotográficas sempre ligadas a vários ensaios ficcionais ou jornalísticos. Escrever era a terapia contra a sua angústia e dolorosas crises depressivas.






(Tinta da China Edições)

Vale a pena conhecer a obra literária e fotográfica que Annemarie deixou. Aconselho vivamente e compra ou a consulta do livro «Annemarie Schwarzenback (1908-1942)» - Auto- Retratos do MUNDO - à venda nas melhores livrarias.


Annemarie Schwarzenback 

Wednesday, March 14, 2012

De volta.



Desenho: Carlos Afonso Dias (C.A.D.)
Fevereiro 2010

Este foi provavelmente o último desenho que (C.A.D.) fez.
Uma noite, já no seu caminho final, pediu-me para encontrar o seu "caderno verde" e para  ver este "boneco" - como ele gostava de chamar, humildemente, aos seus trabalhos.
Um gesto raro vindo de uma pessoa tímida e que "escondia" as suas emoções, escondia inclusivamente os seus desenhos.
Nessa noite de 03 de Fevereiro de 2010, não compreendi o verdadeiro significado desta imagem.
Hoje, é para mim, muito claro; um olhar sobre a complexidade da vida e das relações; um registo que muito diz do fino humor do meu pai. Até ao fim.
Vale a pena observar atentamente cada detalhe deste bonito desenho - representa o seu "mundo" num princípio de viagem que adivinhava em silêncio. Ele está lá também auto-retratado. 
Dedico este regresso à minha mãe e aos meus irmãos.
Com todo o carinho.





Friday, February 17, 2012

O desenho de Carlos Afonso Dias / The drawing of Carlos Afonso Dias



Carlos Afonso Dias (C.A.D.) era engenheiro geógrafo de profissão, licenciado em Matemáticas. Foi Investigador Principal no Instituto Nacional de Investigação de Pescas (I.N.I.P.)



Carlos Afonso Dias (C.A.D.) was a geographical engineer, licensed in Mathematics. Was a main investigator in the national institute of fishing investigation (I.N.I.P.)

Desempenhou essa actividade de um modo empenhado, voluntarista e inovador tanto em Angola como em Portugal.


He performed this work in a committed, proactive and innovative way in Angola and Portugal.


Não sou a pessoa mais indicada para escrever com rigor e conhecimento científico sobre o seu trabalho nesse domínio. Fui sempre um observador atento, fascinado pelos seus gráficos, pelas suas teses e ainda pelos programas informáticos que inventava para melhor elaborar os seus estudos.
A sua obra científica foi publicada em distintas ocasiões e em várias edições internacionais dedicadas às pescas.

I'm not the best person to write with accuracy and scientific knowledge about his work in this area. I have always been an attentive observer, fascinated by his graphics, his thesis and also the computer programs he invented to better prepare their studies. His scientific work has been published on different occasions and in various international editions dedicated to fishing



Fotógrafo apaixonado e dedicado, deixou, um património que constitui uma referência no que concerne à fotografia feita por portugueses, nomeadamente nos anos 50 e 60.

Passionate and dedicated photographer, left, a heritage which is a reference regarding the photography in Portugal, particularly in the 50s and 60s. 

A arte, a criatividade, a procura da perfeição são transversais a tudo aquilo a que se dedicava.

The art, the creativity, the pursuit for perfections are transversal to everything he dedicated to.


Cultivava a "dúvida" como um princípio no seu caminho constante em busca do conhecimento e em todas as suas formas de expressão.


He cultivated the "doubt" as a principle in his constant path in pursuit of knowledge in all its forms of expression.

Entre elas, a menos conhecida e menos divulgada é o desenho.



Among them, the less known and less divulged is the drawing.


Contudo, entendo que era, através do desenho que C.A.D. melhor se exprimia


However, I understand that it was, through drawing that C.A.D. expressed better. 

O seu olhar único, autêntico, critico e irónico, muito presente nas suas fotografias, foi também, nos seus desenhos, uma constante.



His unique look, autenthic, critical and ironic, very present in his photography, was also, in his drawings, a constant.

A técnica que aprimorou na fotografia é também uma característica da sua vocação de desenhador. Através de um traço firme rigoroso e expressivo manifestou sobretudo o seu olhar crítico da sociedade.



The technique he perfected in photography is also a feature of his vocation as a designer. Through a rigorous and firm line he manifested especially his critical view of society.

Fez uma única exposição de desenho e já foi há muitos anos, em Tavira.


He made only one drawing exhibition, many years ago, in Tavira.

Humilde como era não procurava o protagonismo nem tão pouco a autopromoção.


Humble like he was, he didn't look for protagonism, not even self-promotion.

As poucas exposições que fez, sobretudo de fotografia foram-lhe praticamente "impostas" por amigos verdadeiros que quase o "obrigaram" a partilhar o seu talento. "


The few exhibition he made, mostly of photography, were practically "imposed" by real friends that almost "made him" share his talent.

Este dia que dedico inteiramente à sua memória, não ficaria completo sem falar e mostrar a genialidade dos seus desenhos.

This day I dedicate intirely to his memory, wouldn't be completed without mentioning the geniality of his drawings.

Influenciaram-me desde tenra idade. Fascinaram-me e fascinam-me sempre. 

They influenced me since very little. They have always fascinated and still do.


Nota: Peço, por respeito ao meu pai e à família que os desenhos aqui publicados não sejam copiados, reproduzidos ou inseridos em qualquer meio sem a devida autorização. caso contrário accionaremos os meios legais relativos aos Direitos de autor e Direitos conexos.


Note. I ask, for respect to my father and my family, that the drawings here published aren't copied, reproducted or inserted in any way without authorization. Otherwise we will activate the legal means relative to the Copyright and Related Rights.

Gonçalo Afonso Dias
Translation: Tiago Afonso dias




[Prefácio da autoria de Gérard Castello-Lopes para a exposição dos desenhos de Carlos Afonso Dias na Casa das Artes de Tavira em 1984]:


PARIS, 8. XI.84  

Meu querido Carlos, 

Já passou um mês sobre a chegada dos teus desenhos e eu, moita! Primeira constatação: levaste 25 anos a concordar com o que te dizia em Cascais sobre o teu talento de desenhador. Rias-te, fazias pouco, minimizavas-te, como se a tua obrigação fosse de desenhar, pelo menos tão bem como o Leonardo ou o Ingres. 

Lembro-me de falar, nessa altura, na expressividade (Hergénea) do teu traço, da agudeza com que captavas os pormenores característicos de uma situação ou de uma personagem, o que denotava viva inteligência e raro humor. E só quem te não conheça estranhará que, sob o teu exterior severo, o teu olhar triste e a tua postura desconsolada, se esconde um sentido de humor cintilante e um gosto pelo “non sense” que frisa, muitas vezes, o surrealismo à boa maneira espamnola. 

Não sou crítico de arte e por isso terás de desculpar se, no arrazoado que se segue, topares com disparates e contra-sensos. 

O pouco que sei, todavia, levam-me a dizer que os teus desenhos mostram uma tal força, uma maturidade (sobre isso voltarei mais tarde), uma tal “felicidade” na representação da infelicidade, do “pathos”, da solidão, da espera, do medo – da velhice e da morte -, do ridículo, da injustiça, da alienação que tenho que me conter para não te aconselhar – como o fazia há 25 anos – a dedicares o resto do teu tempo a fazer aquilo que é claro ser a tua vereda pessoal. 

Talvez o que me tenha espantado mais nos teus desenhos seja a variedade da tua pesquisa e a riqueza das preocupações que elas revelam. É talvez o único sinal de imaturidade que neles detecto. Fica-se com a impressão que, de repente, acossado pelas urgências do tempo perdido, quiseste fazer tudo de uma vez, de borbotão, como uma comporta que se abre; que se o desenho tivesse sido a única preocupação da tua vida, o teu percurso teria sido, talvez menos explosivo. Terias tido tempo para explorar mais criticamente alguns dos meandros em que te embrenhas. 

Quais são esses meandros? Não é fácil compartimentá-los mas parece óbvio que vives habitado por um feixe de obsessões e não por uma só. É talvez por isso – embora a reflexão me pareça um pouco abusiva – que a primeira coisa que ressenti quando vi os teus desenhos (e ressentia-a com a violência de um vento impetuoso) é que estava confrontado com outros tantos pedaços do “puzzle” de um patético auto-retrato. 

A Paula Rego disse um dia que pinta para dar rosto ao seu medo. Ora o medo parece ser um dos teus temas. Não se trata de um medo metafísico , freudiano, infantil, coisa de pesadelo. É um medo impregnado de espanto, gerador de desalento, de solidão, de silêncio, de revoltas engolidas, de humildade, até. O que te salva é teres intacta a força de o exprimir, a raiva afirmativa de dizer – neste caso de mostrar – que a tua solidão e o teu desânimo são também coisa pessoal, que o cantinho ideológico e político em que eles se fundiram são categoricamente acidentais, o que não significa que não sejam importantes. O que transparece, para mim, é o lado pessoal, intímo, nuclear dessa desilusão do mundo de que a política é quiçá a resignada mas insatisfatória alternativa. 

Os teus desenhos gritam a saudade do bem e a magoada constatação do mal, da injustiça, da crueldade. E do ridículo! Esse sentido do ridículo, agudíssimo nos teus desenhos, revela um sadio sentido de humor ou, mais precisamente, um “sense of humour”, um jeito de rir das próprias misérias e, com alguma dissimulada ternura – com que maníaco pudor a mascaraste sempre -, as misérias dos outros. Até quando, com alguma crueldade, zurzes a maldade, a indiferença ou a alienação dos que te rodeiam, se adivinha que pensas: “There, but for the grace of God, go I”. 

Estarei enganado ao pensar que a presença da ternura nos teus desenhos não é temática mas formal? Que, em vez de desenhares cenas “ternurentas”, a tua afectividade se exprime no traço que sempre achei prodigioso de sensibilidade e duma vibração que me deixa sempre, e profundamente, comovido. 

Com que amor desenhas a sebastiância armadura de pessoa ou o atavio do marchand(?) de quadros! Mas até nesse domínio desconfias de ti próprio e tentas, por vezes, engrossar deliberadamente o risco, utilizando um “marker” espesso para escamotear o que talvez te pareça uma mendacidade demagógica e por isso ilícita. 

O meu propósito não é psicanalisar os teus desenhos nem para isso tenho competência, admitindo que o método tenha relevância ou utilidade. Mais do que tentar sondar o ancoradouro profundo dos temas que afloram nos teus desenhos, parece-me importante rejubilar com o facto de os teres feito e mostrado. Isso exprime a fértil contradição entre desalento e revolta, de sobejo, que estás vivo. E enquanto há vida… (por muito que os bonecos tentem dizer o contrário). 

Não tentarei, por isso, discretear sobre esses temas mas, tão só, inventaria-los. Mencionarei o das duas figuras sentadas lado a lado, uma barbuda, portadora de lunetas, “affalée” e resignada, a outra geralmente de pé, expectante, combativa, sagaz e um pouco cínica. 

Cito as “charges” claramente caricaturais e de índole política e o fascinante tema do ver e do que é visto pela janela, ideia mediterrânica que sucede alienações e ameaças suicidárias. 

Haverá elo subterrâneo entre si e o Pessoa? Faceta que ignoro. Para além da carga simbólica presente no desenho do poeta, enorme, a caminhar na cidade deserta (para mim a cena é nocturna) adivinha-se que o desenhador não o imaginou mas o viu de facto assim, o que empresta à vigília janeleira uma utilidade esperançosa e redentora. 

Vistos os temas, terei desgraçadamente de falar da técnica. Apesar da minha ignorância nessa matéria creio que é nesse âmbito que mais claramente se afirma a tua maturidade, Do traço ligeiro, fino e nervoso, ao claro-escuro amorosamente trabalhado, tudo dominas com a facilidade que decorre, julgo eu, de anos de investigação e de prática e de um talento que, por vezes, roça o virtuosismo. Vendo os teus desenhos (maldita mania a minha da citação e da correspondência) não pude deixar de evocar os do Saul Steinberg e do Ronald Searle. E até os do Beardsley. O que me levou a uma meditação sobre desenho e “cartoon”. 

Provavelmente por preguiça, nunca tinha pensado seriamente no assunto. Privado de autoridade, livresca ou pessoal, sinto-me em terra ignota e, a partir daqui, estou a voar sem rede. 

Não me apetece hierarquizar as duas formas de expressão mas creio que existe uma topicalidade no cartoon que está ausente no desenho. Um cartoon é portador de mensagem, vectorial, sintética, significante. O desenho, para mim, é menos “topical” , mais difuso e, talvez por isso, mais perene. Isto é falso mas ao mesmo tempo verdadeiro porque, para lá da topicalidade, há qualquer coisa que a transcende, isto é, que está por cima. E assim me contradigo novamente porque comecei por afirmar que não há hierarquias. Mas há nos teus desenhos como que uma pulsão literária, uma anedota heráldica, uma necessidade quase obsessiva de dizer pelo traço o que, por pudor; te absténs de dizer por palavras. Isto não constitui um pecado mas, de certa maneira, sinto que isso, para ti, é o último refúgio, a inultrapassável justificação de que te socorres. Talvez haja aqui petição de princípio. Ao contrário de ti, entendo que uma fotografia e, de caminho, um desenho não significam nada. O propósito de um e de outro é desencadearem uma misteriosa (e canónica) alegria no espectador. Tu, agora e sempre, acreditas na guerra dos mundos, e aquela exultação parece-te suspeita. E, a meus olhos, o último obstáculo que te falta transpor para aceder áquilo que eu entendo que é a liberdade. Porque, no fundo de mim vigora a certeza que podes ir mais longe sem ter de mascarar a tua ternura, o teu desespero e a tua solidão sob o atavio da anedota. 

O “engagement” também pode ser medido a longo prazo e a força do teu desespero e do teu talento é tal que, mais do que o sorriso histórico com que acolhemos as denúncias de Daunier, deverias desencadear o perene maravilhamento com que recebemos as mitologias do Picasso. 

Terá isto algum nexo pata ti? Não sei. Só sei que é bom ser teu amigo e que “cartoon” ou desenho, estou contigo e fazes parte da minha vida. 

Abraços do Gérard

(Texto integral)



















(Desenhos de Carlos Afonso Dias, 1983, 1984)
(Drawings by carlos Afonso Dias 83s, 84s)












Tributo ao meu pai - Carlos Afonso Dias (4 de Setembro de 1930 - 17 de Fevereiro de 2010).




"Olhar"
Desenho: Gonçalo Afonso Dias
Acrílico sobre cartão (70x45cm)


O DESAFIO
(...) Começo pelo princípio: Carlos Afonso Dias é meu amigo e foi meu mentor (...)


Foi assim que Gérard Castello Lopes "abriu" o prefácio do catálogo da exposição de fotografia de Carlos Afonso Dias ...(C.A.D.) na extinta galeria "ether/vale tudo menos tirar olhos", entusiasticamente fundada por António Sena, numa cruzada memorável e apaixonada para "desenterrar" a fotografia feita em Portugal, nomeadamente nos anos 50 e 60, por uma geração de grandes e "esquecidos" fotógrafos: Costa 
Martins, Victor Pala, Sena da Silva, Augusto Cabrita, Carlos Calvet, entre outros.
Como Gérard, companheiro de fotografia, cúmplice e grande amigo de C.A.D. também eu gostaria de começar pelo princípio...


Carlos Afonso Dias é meu pai e é para mim uma enorme honra ter a oportunidade de aqui deixar um registo, necessariamente breve, da infinita admiração que tenho pela sua obra, do exemplo de um percurso de rigor, de humildade, de dedicação, de humanismo, de um grande carácter e de amor por uma mulher única - a minha mãe.
As fotografias aqui expostas são uma pequena parte de uma grande vida, de um olhar tímido mas incisivo, discreto mas irónico, inteligentemente crítico, contundente por vezes... É o seu olhar, com ou sem máquina.


É o olhar de um homem inconformado, que questiona, que duvida, duvida sempre.
Por tudo isso gosto de pensar nesta exposição em 3 tempos distintos: O PASSADO: captado magistralmente através da sua Leica - a maioria das fotografias expostas;
O PRESENTE: a abertura a novas experiências; o "mundo digital" - a coragem e a humildade de "ousar" com o mesmo olhar de sempre - a fantástica e enigmática fotografia "garage". por exemplo.
O FUTURO: SOBRETUDO O FUTURO! Um desafio, um olhar mais cansado mas cada vez mais livre, cada vez mais selectivo - imagens que nos hão-de surpreender sempre.
Veremos isso com certeza numa próxima exposição!


GONÇALO AFONSO DIAS
(prefácio da exposição de carlos Afonso Dias na "Galeria Pente 10" em Lisboa, Setembro de 2008

Até Sempre, Pai !


"Garage" (70 x 100cm)


THE CHALLENGE

(...) I Will start at the beginning: Carlos Afonso Dias is my friend and was my mentor.(...).



These were the words chosen by Gérard Castello-Lopes to begin the foreword of the catalogue that accompanied Carlos Afonso Dias (C.A.D.) photography exibition at the extinct "ether/vale tudo menos tirar olhos" gallery. This gallery was founded with the great enthusiasm by António Sena in a memorable and passionate crusade to dig up photography made in Portugal, namely in the 50s and 60s, by a generation of great and 'forgotten' photographers, such as, Costa Martins and Victor Pala, Sena da Silva, Augusto Cabrita, carlos Calvet, among others.

Like Gérard, photography companion, accomplice and C.A.D.'s very good friend, I would also like to start at the beginning...

Carlos Afonso Dias is my father and it is for me a great honour to have the opportunity of leaving here a necessarily brief testimony of the infinite admiration I have for this work and for the example he hás set of thoroughness, humility, dedication, humanity, great character and loving affecion for one woman only - my mother.

The photographs exhibited here represent a small part of a huge life, and of a Look, witch is shy yet incisive, discrete yet ironic , appraising in an intelligent way and sometimes even blunt...

It is his Look, with or without camera. It is the Look of a resistant, a man who questions, who doubts, who is always in doubt.

For the above, I like to think of this exhibition as an evidence of three distinct periods; THE PAST: captured magnificently  by is Leica

- comprising the majority of the of the exhibited photographs. The PRESENT: opening up to new experiences; the "digital world", the courage and humbleness of "daring" the same Look - the fantastic and mysterious "garage" photograph, for instance.

THE FUTURE, MOST ALL THE FUTURE! A challenge, a Look that is more tired, and yet more fere, more and more selective - images that  Will always surprise us.

We Will certainly witness that in a future exibition!



GONÇALO AFONSO DIAS

(Foreword of the catalogue that accompanied Carlos Afonso Dias (C.A.D.) photography exibition at the "Pente 10" gallery in Lisbon, September 2008.)




(C:A:D:) Feira da Ladra, 1958







(C:A:D:) Cascais, 1956


(C:A:D:) Ericeira, 1962


(C:A:D:) S.Pedro Sintra, 1959




(C:A:D:) New York, 1959


(C:A:D:) Florença, 1958


(C:A:D:) Zurich, 1958


(C:A:D:) Nazaré, 1958


A Homenagem no "Olhares.com":


Tributo ao meu pai - Carlos Afonso Dias (4 de Setembro de 1930 - 17 de Fevereiro de 2010).

Cumpre-se hoje o segundo aniversário em que o meu pai - Carlos Afonso Dias "partiu".
Com ele, entre muitas outras coisas aprendi o significado de "ver". Autor de referência da fotografia feita por portugueses, cientista brilhante, desenhador exímio.
Não faria sentido, para mim, homenageá-lo aqui publicando uma das suas fotografias. Por isso deixo um outro "olhar", um desenho em acrílico sobre cartão (70x45cm) que fiz para o homenagear neste dia. Fi-lo a pensar nele, nos seus olhos, nas suas mãos.
Para o meu pai um "Até Sempre".

Para aqueles, e sei que são muitos, interessados em conhecer uma parte da sua obra fotográfica, deixo aqui alguns links:

http://goncaload-artes.blogspot.com/2012/02/tributo-ao-meu-pai-carlos-afonso-dias-4.html

http://www.publico.pt/Cultura/carlos-afonso-dias-19302010-um-poeta-da-fotografia-portuguesa_1423380

http://www.pente10.com/CAD-EN.html

http://lafototecaguatemala.blogspot.com/2011/05/photobook-collectionphotographs-1954.html

http://goncaload-artes.blogspot.com/2010/02/ate-ja-pai-2.html

Wednesday, February 15, 2012

"Subir sempre" - A fotografia a P&B




Fotografia:Gonçalo Afonso Dias
Ávila, Espanha, 2010

A fotografia a P&B

"A ausência de cor, sublima, de certo modo, a aparência do mundo. Recusar a cor é considerá-la, de certa maneira, inútil à essência mesmo do que se quer registar."
(Gérard Castello-Lopes)


(Catálogo da exposição Oui-Non, CCB, Abril 2004)

Referi aqui recentemente, no resumo da fotografia "Coca-Cola" a questão da preferência que tenho pela fotografia a preto e branco e, por outro lado, as razões porque, pontualmente opto pela cor.
Afirmei também que essa escolha não era absoluta nem tão pouco obrigatória nos trabalhos que faço. Tem essencialmente a ver com a natureza daquilo que pretendo transmitir.
A fotografia que agora publico é, de certo modo, um pretexto para partilhar alguns conhecimentos que, acredito, poderão ser úteis a alguns membros que procuram informação (sobretudo teórica) que não encontram nos comentários feitos aos seus trabalhos.
Quando se invoca a obra de Gérard Castello-Lopes, Carlos Afonso Dias, e tantos outros dessa geração de fotógrafos pensa-se exclusivamente na fotografia em P&B, maioritariamente revelada e ampliada a gelatina e prata.
Muitos de nós desconhecem, por exemplo, a fantástica série de fotografias a cores de espantalhos feitas pelo Gérard e que originou a exposição «"Espant' Homens» que aconteceu na Fundação de Serralves, há alguns anos.
Carlos Afonso Dias fez também, sobretudo na sua fase derradeira, diversas experiências onde o seu olhar se concentrou na cor e que fizeram parte (ampliadas em grande formato) da sua última exposição na Galeria "Pente 10" em Lisboa. A mais conseguida, no meu entender, tem o título "Garage" e foi feita, quase espontaneamente no piso de estacionamento do prédio onde morava. Uma obra notável que considero uma síntese de toda a sua obra.
Mas o assunto que esta imagem pretende ilustrar é o Preto e Branco.
Respeito evidentemente todas as formas de fotografar e de editar a fotografia monocromática. Desde os alto-contraste, até às investidas mais experimentalistas

Eu entendo que a beleza de uma fotografia em P&B, independentemente do assunto que a motivou, resulta em grande parte da "largura" da "escala de cinzas". Desde o preto até ao branco são infinitas as tonalidades captadas e reproduzidas.
A edição digital destas fotografias deve ter essa preocupação: assegurar uma gama larga de cinzas, não deixar "explodir" os brancos, não exagerar nos negros.

Para quem, como eu, limita a edição das fotos ao essencial (ajuste de luz, brilho e contraste) o Photoshop é uma ferramenta praticamente inútil.
No meu caso, o laboratório da minha preferência e que vai ao encontro das minhas necessidades é o "ACD see). Possui uma ferramenta simples mas de enorme utilidade - uma espécie de equalizador de luz.
Um pequeno truque, a adição no "color Balance" de uma tonalidade muito contida de "amarelos" (-5 nas médias luzes, -3 nas sombras e -1 nas altas-luzes) é o suficiente para quebrar a frieza da edição directa em P&B e conferir às fotografias uma tonalidade mais próxima daquela que se obtinha nos laboratórios.

Mexer demasiado nas fotografias acaba com elas... Cada um, através da pesquisa, da experimentação e da partilha de conhecimentos acaba por encontrar os mecanismos que melhor os permitem transmitir as suas obras.

Espero que esta abordagem possa ter alguma utilidade para alguém já que, os comentários às fotografias incidem excessivamente no objecto fotografado e muito pouco em matérias mais didácticas.

Um abraço a todos (as).

Nota: Texto e fotografia editos no "Olhares.com"

Monday, January 23, 2012

Ah quando eu tinha 4 anos !



Eu (ao centro) com a minha mãe e os meus irmãos  num dos memoráveis passeios que dávamos no R16!
Fotografia: Carlos Afonso Dias. Lobito, Angola, Dezembro de 1968

Friday, January 20, 2012

Eu no Renault 16 do meu pai.





Se alguém tiver um (em razoável estado) para venda, contacte-me!


Monday, January 09, 2012

The End





O Fim

Este é o fim

Belo amigo

Este é o fim

Meu único amigo, o fim

Dos nossos elaborados planos, o fim

De tudo que permanece, o fim

Sem salvação ou surpresa, o fim

Eu nunca olharei em seus olhos...de novo

Voce pode imaginar o que será?

Tão sem limites e livre

Precisando desesperadamente...de alguma...mão de estranho

Numa terra desesperada?


Perdido numa romana...selva de dor

E todas as crianças estão loucas

Todas as crianças estão loucas

Esperando a chuva de verão, sim

Tem perigo no extremo da cidade

Passeie pela estrada do rei, bem

Cenas estranhas dentro da mina de ouro

Passeie pela estrada do este, bem

Passeie pela serpente, passeie pela serpente

Para o lago, o antigo lago, bem

A serpente é longa, sete milhas

Passeie pela serpente… Ela é velha e sua pele é gelada

O oeste é o melhor

O oeste é o melhor

Vá lá, e nós faremos o resto

O ônibus azul está nos chamando

O ônibus azul está nos chamando

Motorista, aonde está nos levando?


O matador acordou antes do amanhecer, ele pôs suas botas

Ele tirou uma foto da antiga galeria

E andou pelo corredor

Entrou no quarto em que sua irmã vivia, e...então ele

Pagou a visita a seu irmão, e então ele

Ele andou pelo corredor, e

E ele veio até a porta...e ele olhou para dentro

"Pai?", "Sim filho?", "Eu quero te matar."

"Mãe...Eu quero...te foder."


Venha bem, tente conosco (3x)

E me encontre atrás do ônibus azul

Fazendo um foguete azul, No ônibus azul

Fazendo um rock triste, vamos, sim

Matar, matar, matar, matar, matar, matar


Este é o fim, belo amigo

Este é o fim, meu único amigo, o fim

Dói te libertar

Mas você nunca vai me seguir

O fim da gargalhada e das mentiras suaves

O fim das noites que tentávamos morrer

Este é o fim





Desenho : Gonçalo Afonso Dias (01-2012)

Tuesday, January 03, 2012

Angola 2012 - Regresso a Portugal - um coração dividido / Angola 2012 - Return to Portugal - A divided heart


Cheguei ontem a Portugal ao final da tarde. Passei os últimos 10 dias em Angola, maioritariamente em Luanda.
Ali passei o Natal e "enterrei" 2011.

I arrived yesterday to Portugal in the late afternoon. I spent the last 10 days in Angola, mainly in Luanda.
There I spent my Christmas and "burried" 2011.

Não foi a primeira vez que passei o ano em Angola.

It wasn't the first time I passed the year in Angola.

Mas esta foi especial - fui com a minha Mãe. Uma angolana nascida em Luanda no dia 27 de Agosto de 1933, (com 78 anos, portanto) que há 31 anos não pisava a sua terra.
Não se trata de uma angolana comum; é uma "mulher de armas" com um coração enorme, inversamente proporcional à aparente fragilidade do seu metro e meio de altura, ou pouco mais.

But this time was special - I went with my Mom. An angolan born in Luanda August 27th 1933, (78 years old) that hadn't stepped foot on her land for 31 years.
It isn't a common Angolan, it's a "woman of arms" with a huge heart, invesely porportional to the the aparent fragility of her meter and a half tall, or a little bit more.





"Duas Grandes mulheres - A minha mãe e a Isabel"

Fotografia: Gonçalo Afonso Dias. Luanda, 01 de Janeiro de 2012
"Two Wondergul woman - My mother and Isabel"

Photography: Gonçalo Afonso Dias. Luanda, January 1st 2012


Sonhou, nos tempos do colonialismo, com uma Angola Independente, com um povo livre e dono do seu país. 

Dreamed, in the times of colonialism, with an Independent Angola, with a free people and master of it's country.




(Edição do departamento de Orientação Revolucionária (DOR) - MPLA) 



Lutou depois, nos memoráveis tempos da guerrilha pelo poder, entre os 3 principais movimentos (M.P.L.A., U.N.I.T.A e F.N.L.A) nas fileiras da O.M.A. (Organização da mulher Angolana), afecta ao Movimento Popular de Libertação de Angola.


Later fought in the memorable times of guerilla for power, between the 3 principal movements (M.P.L.A., U.N.I.T.A. and F.N.L.A.) in the ranks of O.M.A. (Organization of Angolan Women), affected yby the M.P.L.A. (People's Movement for the Liberation of Angola).

Como enfermeira esteve, por diversas vezes no "teatro de guerra", na Frente de Combate a auxiliar e a salvar, em muitos casos, os militares das F.A.P.L.A. (Forças Armadas de Libertação de Angola) feridos em combate.

As a nurse she was, in diverse ocasions in the "theater of war", at the front to assist, in many cases, the soldiers of the F.A.P.L.A. (People's Armed Forces for the Liberation of Angola) wounded in combat.

Com o meu (já desaparecido) pai abdicou de uma vida tranquila, ficou no seu país, com a sua família quando quase todos, em 75,  retornaram a Portugal.

Together with my (already gone) father, she abdicated of a quiet life, stayed in her country, with her family when almost everybody, in 75, had returned to Portugal.

Viveu (vivemos) tempos difíceis e Históricos no "Pós Independência". A insegurança e os focos de guerrilha, a total ausência de bens alimentares - consequências de uma descolonização selvagem protagonizada pelas autoridades portuguesas, depois de uma colonização focada na ganância económica onde os negros, quanto muito, aspiravam a um lugar de "contínuo" num qualquer serviço público.

She lived (we live) hard and Historical times in the "Post-Independence". Insecurity and Guerrilla warfare, the total absence of food - consequences of colonization by the Portuguese authorities, after a colonization focused on economic greed where blacks, at best, aspired to be a "janitor" in some public service.




"Natal em Família"
Fotografia: Gonçalo Afonso Dias. Luanda 24 de Dezembro de 2011

"Christmas in Family"
Photography: Gonçalo Afonso Dias. Luanda, December 24th 2011


Vivemos no Lobito até ao "Avanço" das forças da UNITA a partir da África do Sul, (pouco tempo antes da Independência), apoiadas politicamente pelos Estados Unidos e militarmente reforçadas pelos mercenários Sul-Africanos. Fizemos parte da "coluna" de angolanos e portugueses afectos ao MPLA que foi obrigada ao famoso "recuo" de carro para Luanda enquanto o exército UNITA / MERCENÁRIOS avançava vertiginosamente para a capital.

We lived in Lobito to the "Advancement" of UNITA forces from South Africa, (shortly before independence), supported by the United States and politically and militarily reinforced by South African mercenaries. We were part of "column" of Portuguese and Angolan MPLA which was assigned to thank the famous "retreat" by car to Luanda while the UNITA military / mercenary progressed dramatically in the capital.

Três dias de medo, de fome, de privações mas também 3 dias onde imperou a solidariedade e a coragem de todos. A gasolina era escassa, as paragens eram frequentes para dividir por todos o pouco combustível que havia nos depósitos dos automóveis.

Three days of fear, hunger, deprivation but also three days where it prevailed solidarity and courage of all. Gas was scarce, the stops were common to divide by all the little fuel that was in the tanks of the cars.

Tempos e momentos Épicos... Uma história que ainda está por contar.

Times and Epic moments.... A story that is yet to be told.
A História de tantos portugueses e angolanos que deram tudo, inclusive a vida, por uma causa maior - o Direito à Liberdade de um Povo Oprimido.

The story of so many Portuguese and Angolan that gave everything, including their life, for a bigger cause - The right to Liberty of a Repressed Poeple.
Não serei eu a escrever essa História. Será o Tempo. Necessariamente.

I won't be the one writing this story. It will be time. Necessarily.

O Tempo, acredito, eternizará a memória de homens como Eduardo Azevedo, que usava a sua pequena avioneta para ajudar as FAPLA nos reconhecimentos aéreos. O Eduardo Azevedo, branco, português, casado com uma francesa (Marie-France) e com vários filhos nascidos em Angola morreu pela "causa". A sua avioneta foi abatida pela UNITA, na pista do aeródromo do Lubango (ex - Sá da Bandeira). Acabou ali... mas permanecerá como um herói no coração de todos os que o conheceram, brancos ou negros, angolanos ou portugueses.

The Time, I believe, with perpetuate the memory of men like Duardo Azevedo, who used his little plane to help the FAPLAs in air reconnaissance. Eduardo Azevedo, white, portuguese, married witha french woman (Marie-France) and with many children born in Angola died for the "cause".
His aircraft was taken down by the UNITA, in the stril of the Lubango Airport (ex Sá da Bandeira).
He ended there... but will prevail as a hero in the heart of everyone who met him, black or white, angolan or portuguese.


Este pequeno texto (o primeiro de muitos que se seguirão sobre esta estadia em Angola) inclui memórias vivas, reacendidas de cada vez que piso esse país que também é meu.

This piece of text (the first of many that will follow about this stay in Angola) includes vivid memories, rekindled every time I step on that country which is also mine.

Contudo, como de todas as vezes, sinto-me dividido... As emoções atropelam-se, umas boas, outras más...Cansam-me muito mas não me impedem de pensar. Lá como cá considero-me uma espécie de "dissidente", um "não-alinhado".

However, like all times, I feel divided ... Emotions run over us, some good, some bad ... They tire me a lot but do not prevent me from thinking. There as here I consider myself some kind of "maverick", a "non-aligned".

Lá como cá, não deixarei nunca de dizer e de escrever aquilo que penso. E pensar, indiferente aos pressupostos políticos, aos sofismas do poder, aos discursos do "sentido único" e da "ausência de alternativas", é o melhor tributo que posso prestar a pessoas como o Eduardo Azevedo, a minha mãe mas sobretudo ao meu Pai -  que me ensinou o "Exercício da Dúvida Metódica". Na arte e na vida. Ou, mais poeticamente, na "Díficil Arte de Viver de Cabeça Levantada".


There as here, I will never stop saying and writing what I think. And to think, regardless of the political assumptions, the sophistries of power, the discourse of the "one way" and "no alternative" is the best tribute I can pay to people like Eduardo Azevedo, my mother and especially my Father - who taught me the "Exercise of methodical doubt." In art and life. Or, more poetically, the "difficult art of living with your head up."



Com um beijo à Catila Mingas que reencontrei em plena pista do Aeroporto de Luanda

With a kiss to Catila Mingas that I re-found in broad lane of the Luanda airport

Gonçalo Afonso Dias (architect)
Translation: Tiago Afonso Dias