Meu querido Carlos,
Já passou um mês sobre a chegada dos teus desenhos e eu, moita! Primeira constatação: levaste 25 anos a concordar com o que te dizia em Cascais sobre o teu talento de desenhador. Rias-te, fazias pouco, minimizavas-te, como se a tua obrigação fosse de desenhar, pelo menos tão bem como o Leonardo ou o Ingres.
Lembro-me de falar, nessa altura, na expressividade (Hergénea) do teu traço, da agudeza com que captavas os pormenores característicos de uma situação ou de uma personagem, o que denotava viva inteligência e raro humor. E só quem te não conheça estranhará que, sob o teu exterior severo, o teu olhar triste e a tua postura desconsolada, se esconde um sentido de humor cintilante e um gosto pelo “non sense” que frisa, muitas vezes, o surrealismo à boa maneira espamnola.
Não sou crítico de arte e por isso terás de desculpar se, no arrazoado que se segue, topares com disparates e contra-sensos.
O pouco que sei, todavia, levam-me a dizer que os teus desenhos mostram uma tal força, uma maturidade (sobre isso voltarei mais tarde), uma tal “felicidade” na representação da infelicidade, do “pathos”, da solidão, da espera, do medo – da velhice e da morte -, do ridículo, da injustiça, da alienação que tenho que me conter para não te aconselhar – como o fazia há 25 anos – a dedicares o resto do teu tempo a fazer aquilo que é claro ser a tua vereda pessoal.
Talvez o que me tenha espantado mais nos teus desenhos seja a variedade da tua pesquisa e a riqueza das preocupações que elas revelam. É talvez o único sinal de imaturidade que neles detecto. Fica-se com a impressão que, de repente, acossado pelas urgências do tempo perdido, quiseste fazer tudo de uma vez, de borbotão, como uma comporta que se abre; que se o desenho tivesse sido a única preocupação da tua vida, o teu percurso teria sido, talvez menos explosivo. Terias tido tempo para explorar mais criticamente alguns dos meandros em que te embrenhas.
Quais são esses meandros? Não é fácil compartimentá-los mas parece óbvio que vives habitado por um feixe de obsessões e não por uma só. É talvez por isso – embora a reflexão me pareça um pouco abusiva – que a primeira coisa que ressenti quando vi os teus desenhos (e ressentia-a com a violência de um vento impetuoso) é que estava confrontado com outros tantos pedaços do “puzzle” de um patético auto-retrato.
A Paula Rego disse um dia que pinta para dar rosto ao seu medo. Ora o medo parece ser um dos teus temas. Não se trata de um medo metafísico , freudiano, infantil, coisa de pesadelo. É um medo impregnado de espanto, gerador de desalento, de solidão, de silêncio, de revoltas engolidas, de humildade, até. O que te salva é teres intacta a força de o exprimir, a raiva afirmativa de dizer – neste caso de mostrar – que a tua solidão e o teu desânimo são também coisa pessoal, que o cantinho ideológico e político em que eles se fundiram são categoricamente acidentais, o que não significa que não sejam importantes. O que transparece, para mim, é o lado pessoal, intímo, nuclear dessa desilusão do mundo de que a política é quiçá a resignada mas insatisfatória alternativa.
Os teus desenhos gritam a saudade do bem e a magoada constatação do mal, da injustiça, da crueldade. E do ridículo! Esse sentido do ridículo, agudíssimo nos teus desenhos, revela um sadio sentido de humor ou, mais precisamente, um “sense of humour”, um jeito de rir das próprias misérias e, com alguma dissimulada ternura – com que maníaco pudor a mascaraste sempre -, as misérias dos outros. Até quando, com alguma crueldade, zurzes a maldade, a indiferença ou a alienação dos que te rodeiam, se adivinha que pensas: “There, but for the grace of God, go I”.
Estarei enganado ao pensar que a presença da ternura nos teus desenhos não é temática mas formal? Que, em vez de desenhares cenas “ternurentas”, a tua afectividade se exprime no traço que sempre achei prodigioso de sensibilidade e duma vibração que me deixa sempre, e profundamente, comovido.
Com que amor desenhas a sebastiância armadura de pessoa ou o atavio do marchand(?) de quadros! Mas até nesse domínio desconfias de ti próprio e tentas, por vezes, engrossar deliberadamente o risco, utilizando um “marker” espesso para escamotear o que talvez te pareça uma mendacidade demagógica e por isso ilícita.
O meu propósito não é psicanalisar os teus desenhos nem para isso tenho competência, admitindo que o método tenha relevância ou utilidade. Mais do que tentar sondar o ancoradouro profundo dos temas que afloram nos teus desenhos, parece-me importante rejubilar com o facto de os teres feito e mostrado. Isso exprime a fértil contradição entre desalento e revolta, de sobejo, que estás vivo. E enquanto há vida… (por muito que os bonecos tentem dizer o contrário).
Não tentarei, por isso, discretear sobre esses temas mas, tão só, inventaria-los. Mencionarei o das duas figuras sentadas lado a lado, uma barbuda, portadora de lunetas, “affalée” e resignada, a outra geralmente de pé, expectante, combativa, sagaz e um pouco cínica.
Cito as “charges” claramente caricaturais e de índole política e o fascinante tema do ver e do que é visto pela janela, ideia mediterrânica que sucede alienações e ameaças suicidárias.
Haverá elo subterrâneo entre si e o Pessoa? Faceta que ignoro. Para além da carga simbólica presente no desenho do poeta, enorme, a caminhar na cidade deserta (para mim a cena é nocturna) adivinha-se que o desenhador não o imaginou mas o viu de facto assim, o que empresta à vigília janeleira uma utilidade esperançosa e redentora.
Vistos os temas, terei desgraçadamente de falar da técnica. Apesar da minha ignorância nessa matéria creio que é nesse âmbito que mais claramente se afirma a tua maturidade, Do traço ligeiro, fino e nervoso, ao claro-escuro amorosamente trabalhado, tudo dominas com a facilidade que decorre, julgo eu, de anos de investigação e de prática e de um talento que, por vezes, roça o virtuosismo. Vendo os teus desenhos (maldita mania a minha da citação e da correspondência) não pude deixar de evocar os do Saul Steinberg e do Ronald Searle. E até os do Beardsley. O que me levou a uma meditação sobre desenho e “cartoon”.
Provavelmente por preguiça, nunca tinha pensado seriamente no assunto. Privado de autoridade, livresca ou pessoal, sinto-me em terra ignota e, a partir daqui, estou a voar sem rede.
Não me apetece hierarquizar as duas formas de expressão mas creio que existe uma topicalidade no cartoon que está ausente no desenho. Um cartoon é portador de mensagem, vectorial, sintética, significante. O desenho, para mim, é menos “topical” , mais difuso e, talvez por isso, mais perene. Isto é falso mas ao mesmo tempo verdadeiro porque, para lá da topicalidade, há qualquer coisa que a transcende, isto é, que está por cima. E assim me contradigo novamente porque comecei por afirmar que não há hierarquias. Mas há nos teus desenhos como que uma pulsão literária, uma anedota heráldica, uma necessidade quase obsessiva de dizer pelo traço o que, por pudor; te absténs de dizer por palavras. Isto não constitui um pecado mas, de certa maneira, sinto que isso, para ti, é o último refúgio, a inultrapassável justificação de que te socorres. Talvez haja aqui petição de princípio. Ao contrário de ti, entendo que uma fotografia e, de caminho, um desenho não significam nada. O propósito de um e de outro é desencadearem uma misteriosa (e canónica) alegria no espectador. Tu, agora e sempre, acreditas na guerra dos mundos, e aquela exultação parece-te suspeita. E, a meus olhos, o último obstáculo que te falta transpor para aceder áquilo que eu entendo que é a liberdade. Porque, no fundo de mim vigora a certeza que podes ir mais longe sem ter de mascarar a tua ternura, o teu desespero e a tua solidão sob o atavio da anedota.
O “engagement” também pode ser medido a longo prazo e a força do teu desespero e do teu talento é tal que, mais do que o sorriso histórico com que acolhemos as denúncias de Daunier, deverias desencadear o perene maravilhamento com que recebemos as mitologias do Picasso.
Terá isto algum nexo pata ti? Não sei. Só sei que é bom ser teu amigo e que “cartoon” ou desenho, estou contigo e fazes parte da minha vida.
Abraços do Gérard
(Texto integral)