Showing posts with label poesia. Show all posts
Showing posts with label poesia. Show all posts

Saturday, October 20, 2012

Tudo o que quero é voar.

Tudo o que quero é voar, para onde não sei
(GAD)

 
Fotografia: Gonçalo Afonso Dias, Benguela, Angola, Outubro 2012

Friday, October 12, 2012

EU




SOU LOUCO e tenho por memória
Uma longínqua e infiel lembrança
De qualquer dita transitória
Que sonhei ter quando criança.
...
Depois, malograda trajetória
Do meu destino sem esperança,
Perdi, na névoa da noite inglória,
O saber e o ousar da aliança.

Só guardo como um anel pobre
Que a todo herdeiro só faz rico
Um frio perdido que me cobre

Como um céu dossel de mendigo,
Na curva inútil em que fico
Da estrada certa que não sigo.

(Fernando Pessoa)

Desenho: Gonçalo Afonso Dias, 2012

Thursday, October 11, 2012

Tuesday, October 09, 2012

NÓS ESTAMOS A MORRER...

 
 
 
Desenho: Gonçalo Afonso Dias, Outubro 2012


Nós estamos a morrer...

Enlevados,


Os poetas estão a falar da morte,

Falando talvez de uma gota

Que de no ar ir crescendo,

Sem nome, primeiro,

Numa nuvem nascida,

Com nome,

Crescida,

Voando sem fronteiras, depois, 


Talvez do peso,

Talvez cansada da vida,

A gota ao cair morreu…



Mas nós, não,

Nós estamos a morrer…


(José Rodrigues Dias)

Sunday, October 07, 2012

SEI QUE NÃO VOU POR AÍ !

 




Fotografia e edição: Gonçalo Afonso Dias, Outubro 2012


Cântico Negro

"Vem por aqui" - dizem-me alguns com os olhos doces
Estendendo-me os braços, e seguros
De que seria bom que eu os ouvisse
Quando me dizem: "vem por aqui!"
Eu olho-os com olhos lassos,
(Há, nos olhos meus, ironias e cansaços)
E cruzo os braços,
E nunca vou por ali...

A minha glória é esta:
Criar desumanidade!
Não acompanhar ninguém.
- Que eu vivo com o mesmo sem-vontade
Com que rasguei o ventre à minha mãe

Não, não vou por aí! Só vou por onde
Me levam meus próprios passos...

Se ao que busco saber nenhum de vós responde
Por que me repetis: "vem por aqui!"?

Prefiro escorregar nos becos lamacentos,
Redemoinhar aos ventos,
Como farrapos, arrastar os pés sangrentos,
A ir por aí...

Se vim ao mundo, foi
Só para desflorar florestas virgens,
E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada!
O mais que faço não vale nada.

Como, pois sereis vós
Que me dareis impulsos, ferramentas e coragem
Para eu derrubar os meus obstáculos?...
Corre, nas vossas veias, sangue velho dos avós,
E vós amais o que é fácil!
Eu amo o Longe e a Miragem,
Amo os abismos, as torrentes, os desertos...

Ide! Tendes estradas,
Tendes jardins, tendes canteiros,
Tendes pátria, tendes tectos,
E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios...
Eu tenho a minha Loucura !
Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura,
E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios...

Deus e o Diabo é que guiam, mais ninguém.
Todos tiveram pai, todos tiveram mãe;
Mas eu, que nunca principio nem acabo,
Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo.

Ah, que ninguém me dê piedosas intenções!
Ninguém me peça definições!
Ninguém me diga: "vem por aqui"!
A minha vida é um vendaval que se soltou.
É uma onda que se alevantou.
É um átomo a mais que se animou...
Não sei por onde vou,
Não sei para onde vou
- Sei que não vou por aí!

(José Régio)


"NÃO SEI QUEM SOU"

 
 
Fotografia: Gonçalo Afonso Dias, Parede, 2012


Sonho. Não sei quem sou neste momento.
Durmo sentindo-me. Na hora calma
Meu pensamento esquece o pensamento,
Minha alma não tem alma.

Se existo é um erro eu o saber. Se acordo
Parece que erro. Sinto que não sei.
Nada quero nem tenho nem recordo.
Não tenho ser nem lei.

Lapso da consciência entre ilusões,
Fantasmas me limitam e me contêm.
Dorme insciente de alheios corações,
Coração de ninguém.

(Fernando Pessoa, in "Cancioneiro")

Saturday, October 06, 2012

ANIMAL FERIDO

Desenho: Gonçalo Afonso Dias, Outubro 2012




ANIMAL FERIDO

Sou o improvável por detrás da cortina da neblina que me sublima. Distraída morro nos versos desconexos que me alucinam e que devoram as minhas horas sem rima. Corro em disparada em direção ao infinito, carregando, no meu dorso, a minha carga e soltando talvez o meu último grito de animal ferido. A luz do sol queima a minha pele e abre os meus poros. Banho-me no sal do meu suor na tentativa de aliviar a dor de minhas feridas expostas. A minha boca está seca, a língua rachada, tenho fome, sede e febre alta. Estou exausta. Antropofágica, devoro a minha própria carne e sacio a minha sede bebendo no oásis de minhas próprias lágrimas, com furor. Como uma corredora, no deserto de minhas fragilidades, vou em frente. A brisa que sopra acaricia o meu corpo quente e o deixa dormente, abstraído de sua condição. Neste exato momento, sou toda coração e para cumprir mais essa etapa, cuja única meta é conseguir chegar ao final da estrada, libero o que sobrou de mim para vibrar no ritmo de sua pulsação.


(Rosa Berg)

 

Friday, October 05, 2012

Já não me importo ...

 

 
Desenho: Gonçalo Afonso Dias, Outubro 2012
 
 
Já não me importo

Já não me importo
Até com o que amo ou creio amar.
Sou um navio que chegou a um porto
E cujo movimento é ali estar.

Nada me resta
Do que quis ou achei.
Cheguei da festa
Como fui para lá ou ainda irei

Indiferente
A quem sou ou suponho que mal sou,

Fito a gente
Que me rodeia e sempre rodeou,

Com um olhar
Que, sem o poder ver,
Sei que é sem ar
De olhar a valer.

E só me não cansa
O que a brisa me traz
De súbita mudança
No que nada me faz.
 
(Fernando Pessoa)

Thursday, September 27, 2012

"Quem sente muito cala"

 
 
Desenho: Gonçalo Afonso Dias, 09/2012


Para ti Susana pelo teu dia de anos e pela grande, grande Mulher que és.

.............................................................................................

O Amor

O amor, quando se revela,
Não se sabe revelar.
Sabe bem olhar p'ra ela,
Mas não lhe sabe falar.

Quem quer dizer o que sente
Não sabe o que há de *dizer.
Fala: parece que mente
Cala: parece esquecer

Ah, mas se ela adivinhasse,
Se pudesse ouvir o olhar,
E se um olhar lhe bastasse
Pr'a saber que a estão a amar!

Mas quem sente muito, cala;
Quem quer dizer quanto sente
Fica sem alma nem fala,
Fica só, inteiramente!

Mas se isto puder contar-lhe
O que não lhe ouso contar,
Já não terei que falar-lhe
Porque lhe estou a falar..

(Fernando Pessoa)

Thursday, September 20, 2012

O que há em mim é sobretudo cansaço

 
 
 
Desenho: Gonçalo Afonso Dias, 09/2012


Cansaço

O que há em mim é sobretudo cansaço —
Não disto nem daquilo,
Nem sequer de tudo ou de nada:
Cansaço assim mesmo, ele mesmo,
Cansaço.

A subtileza das sensações inúteis,
As paixões violentas por coisa nenhuma,
Os amores intensos por o suposto em alguém,
Essas coisas todas —
Essas e o que falta nelas eternamente —;
Tudo isso faz um cansaço,
Este cansaço,
Cansaço.

Há sem dúvida quem ame o infinito,
Há sem dúvida quem deseje o impossível,
Há sem dúvida quem não queira nada —
Três tipos de idealistas, e eu nenhum deles:
Porque eu amo infinitamente o finito,
Porque eu desejo impossivelmente o possível,
Porque quero tudo, ou um pouco mais, se puder ser,
Ou até se não puder ser...

E o resultado?
Para eles a vida vivida ou sonhada,
Para eles o sonho sonhado ou vivido,
Para eles a média entre tudo e nada, isto é, isto...
Para mim só um grande, um profundo,
E, ah com que felicidade infecundo, cansaço,
Um supremíssimo cansaço,
Íssimno, íssimo, íssimo,
Cansaço...

Álvaro de Campos, in "Poemas"
Heterónimo de Fernando Pessoa

As Escadas

 
 
 
Desenho: Gonçalo Afonso Dias, 09/2012
 

"Toma, este é o meu corpo, o que sobe as escadas
em direcção à tua escuridão, deixando-me,
ou a alguma coisa menos tangível,
no seu lugar"


(Manuel António Pina)
 

 

Saturday, September 08, 2012

Apaguem a Luz ao Sair

 
Fotografia: Gonçalo Afonso Dias, 09/2012


Apaguem a Luz ao Sair

aplaudiram-no nos bastidores,
induziram-no, encenação em palco;
textos, partituras próprias, ilusões.
solilóquios, suas únicas referências.
‘sob a una luz do refletor; a cena’
e o palhaço se fez ator e público;
aplaudiu-se,
chorou, agradeceu e sorriu, só,
sem o rumor da platéia que sumiu,
não resistiu desde o primeiro ato,
ou nunca existiu. dispensável...
‘se fez teatro; não saberemos!’
fecharam a cortina grená.

(Yan Booss)

Tuesday, August 14, 2012

Fusão



 
"Rasgos que fluem
imersos no Ser
que noutro Ser se desnuda
Fugaz momento de atónitos pasmos
Ludibriantes flutuações em voláteis suspiros
Densa a noite
Profunda a Fusão."

Fotografia: Gonçalo Afonso Dias

Poema:
emeaprendizdaescrita

Friday, August 03, 2012

Quando a solidão é um imperativo


Fotografia: Gonçalo Afonso Dias, Parede, 08/2012

Hoje. Saí do atelier já tarde, perto das 8 da noite. Cansado, de cabeça cheia... Telefonemas, Reuniões de trabalho, decisões que não se podem adiar, a pressão dos prazos, mais telefonemas, mais decisões, desenhos que traduzem os sonhos com que adormeço.
O caminho para casa é curto e bonito. Retemperador. Poucos quilómetros na Marginal de Cascais entre S. Pedro e Santo Amaro.
A luz do fim de tarde e o mar...
De repente como se tivesse que ser, encostei e entrei num parque junto a um simpático bar com uma esplanada fantástica que a essa hora já não tinha ninguém.
Precisava de olhar para o mar, de o ouvir. Fiz uma fotografias enquanto "bebia um copo". Depois segui o meu destino. Amanhã é outro dia…



"Eu queria ter o tempo e o sossego suficientes
Para não pensar em coisa nenhuma,
Para nem me sentir viver,
Para só saber de mim nos olhos dos outros, reflectido."

Alberto Caeiro, in "Poemas Inconjuntos"

Sunday, July 15, 2012

Poeta por um dia...


O "Lusofonia Poética" (L.P.)publicou um pequeno texto que eu escrevi para acompanhar uma fotografia idenficando-me como "poeta angolano".
Confesso que me soube bem... mas,angolano eu sou, poeta não... embora a poesia me encante. Contudo,acredito que tudo aquilo que se faz com paixão, com amor, atrás de um sonho qualquer, acaba por ter, inevitavelmente, uma certa carga poética.
Por isso o meu obrigado ao (L.P.)



VISITE O "LUSOFONIA POÉTICA", VALE A PENA.

Saturday, July 14, 2012

Quitandeira



Fotografia: Gonçalo Afonso Dias
Luanda, Angola, 07/2012


QUITANDEIRA

A quitanda.
Muito sol
e a quitandeira à sombra
da mulemba.

- Laranja, minha senhora,
laranjinha boa!

A luz brinca na cidade
o seu quente jogo
de claros e escuros
e a vida brinca
em corações aflitos
o jogo da cabra-cega.

A quitandeira
que vende fruta
vende-se.

- Minha senhora
laranja, laranjinha boa!

Compra laranja doces
compra-me também o amargo
desta tortura
da vida sem vida.

Compra-me a infância do espírito
este botão de rosa
que não abriu
princípio impelido ainda para um início.

Laranja, minha senhora!

Esgotaram-se os sorrisos
com que chorava
eu já não choro.

E aí vão as minhas esperanças
como foi o sangue dos meus filhos
amassado no pó das estradas
enterrado nas roças
e o meu suor
embebido nos fios de algodão
que me cobrem.

Como o esforço foi oferecido
à segurança das máquinas
à beleza das ruas asfaltadas
de prédios de vários andares
à comodidade de senhores ricos
à alegria dispersa por cidades
e eu
me fui confundindo
com os próprios problemas da existência.

Aí vão as laranjas
como eu me ofereci ao álcool
para me anestesiar
e me entreguei às religiões
para me insensibilizar
e me atordoei para viver.

Tudo tenho dado.

Até mesmo a minha dor
e a poesia dos meus seios nus
entreguei-as aos poetas.

Agora vendo-me eu própria.
- Compra laranjas
minha senhora!
Leva-me para as quitandas da Vida
o meu preço é único:
- sangue.

Talvez vendendo-me
eu me possua.

- Compra laranjas!


(Agostinho Neto)






Thursday, July 12, 2012

Chagas de Salitre



Fotografia: Gonçalo Afonso Dias
Lobito, Angola, 07/2012

Chagas de Salitre
de
Ruy Duarte de Carvalho

Olha-me este país a esboroar-se
em chagas de salitre
e os muros, negros, dos fortes
roídos pelo vegetar
da urina e do suor
a carne virgem mandada
cavar glórias a grandeza
do outro lado do mar.

Olha-me a história de um país perdido:
marés vazantes de gente amordaçada,
a ingénua tolerância aproveitada
em carne. Pergunta ao mar,
que é manso e afaga ainda
a mesma velha costa erosionada.

Olha-me as brutas construções quadradas:
embarcadouros, depósitos de gente.
Olha-me os rios renovados de cadáveres,
os rios turvos de espesso deslizar
dos braços e das mãos do meu país.

Olha-me as igrejas restauradas
sobre ruínas de propalada fé:
paredes brancas de um urgente brio
escondendo ferros de educar gentio.

Olha-me noite herdada, nestes olhos
de um povo condenado a amassar-te o pão.
Olha-me amor, atenta podes ver
uma história de pedra a construir-se
sobre uma história morta a esboroar-se
em chagas de salitre.



Ruy Duarte de Carvalho (Santarém, 1941 – Swakopmund, 2010) foi um escritor, cineasta e antropólogo angolano
 (Wikipédia)



(Fotografia: Net)

"Costumo dizer que é muito mais fácil fotografar a miséria do que a alegria.
Não fotografo mendigos ou indigentes já sem dignidade, já sem a capacidade de dizer: Não!
Não fotografo "ás escondidas", sub-repticiamente, para conseguir uma imagem com impacto.
Em Angola, em Portugal ou noutra parte qualquer do Mundo procuro fotografar a verdade, com verdade. Este homem é digno. O que não é digno é o que estão a fazer dele e de muitos milhares nas mesmas condições...
Importa em fotojornalismo "não inventar realidades". A fotografia, neste caso é uma arma, pequena mas contundente, de denúncia, de critica, de protesto e, sobretudo, de solidariedade." (GAD)

Monday, May 14, 2012

O Fundo do Poço



Desenho: Gonçalo Afonso Dias. 05-2012


O Fundo do Poço

O Fundo do poço, é o ultimo lugar
que o ser humano chega
e se sente um nada
um perdedor,
um zero a esquerda
um verme.

E foi lá que voce chegou
Tentaste me levar contigo
Mas consegui me erguer
e fugir de voce

Agora o que fazes? sei lá,
e nem quero saber;
o que fazes,
o que sentes,
o que falas,
com quem andas.

Te quero longe de mim
Não quero nem ouvir a tua voz

Quero sim viver e ser feliz
Sem pensar que um dia
te conheci e te amei.

(Nancy Cobo)

Friday, May 11, 2012

Horizonte



"Horizonte"
Pintura: Gonçalo Afonso Dias
Acrílico sobre papel (20x15cm)
05-2012


O mar anterior a nós, teus medos 

Tinham coral e praias e arvoredos. 

Desvendadas a noite e a cerração, 
As tormentas passadas e o mistério, 
Abria em flor o Longe, e o Sul sidério 
'Splendia sobre as naus da iniciação. 

Linha severa da longínqua costa — 
Quando a nau se aproxima ergue-se a encosta 
Em árvores onde o Longe nada tinha; 
Mais perto, abre-se a terra em sons e cores: 
E, no desembarcar, há aves, flores, 
Onde era só, de longe a abstrata linha 

O sonho é ver as formas invisíveis 
Da distância imprecisa, e, com sensíveis 
Movimentos da esp'rança e da vontade, 
Buscar na linha fria do horizonte 
A árvore, a praia, a flor, a ave, a fonte — 
Os beijos merecidos da Verdade.

(Fernando Pessoa)

Estou Tonto



Pintura: Gonçalo Afonso Dias.
Acrílico sobre papel (30x20cm)
05-2012

Estou tonto, 


Tonto de tanto dormir ou de tanto pensar, 

Ou de ambas as coisas. 

O que sei é que estou tonto 

E não sei bem se me devo levantar da cadeira 
Ou como me levantar dela. 
Fiquemos nisto: estou tonto. 

Afinal 
Que vida fiz eu da vida? 
Nada. 
Tudo interstícios, 
Tudo aproximações, 
Tudo função do irregular e do absurdo, 
Tudo nada. 
É por isso que estou tonto ... 

Agora 
Todas as manhãs me levanto 
Tonto ... 

Sim, verdadeiramente tonto... 
Sem saber em mim e meu nome, 
Sem saber onde estou, 
Sem saber o que fui, 
Sem saber nada. 

Mas se isto é assim, é assim. 
Deixo-me estar na cadeira, 
Estou tonto. 
Bem, estou tonto. 
Fico sentado 
E tonto, 
Sim, tonto, 
Tonto... 
Tonto. 

(Álvaro de Campos, in "Poemas" )
Heterónimo de Fernando Pessoa