Monday, April 30, 2012

Angola - O Miradouro Da Lua







(Imagens: Google Earth)

O Miradouro da Lua é um conjunto de falésias 40 km a sul de Luanda, no município da Samba, em Angola.

Ao longo do tempo, a erosão provocada pelo vento e pela chuva foi criando a paisagem de tipo lunar que hoje encontramos. O Miradouro da Lua é um ponto turístico de paragem obrigatória para quem se dirige de Luanda à Barra do Cuanza ou às praias do Cabo Ledo.





(Cabo Ledo)

Este foi o cenário do filme "O Miradouro da Lua" do realizador português Jorge António, a primeira co-produção cinematográfica luso-angolana, rodada em 1993 e que obteve o prémio especial Realização no Festival de Gramado, Brasil. A longa-metragem, do género ficção, tem a participação de actores e técnicos angolanos e portugueses. Conta a história de um jovem lisboeta que vem a Angola à procura do pai que não conhece, e que no fim do filme, no cenário grandioso do Miradouro da Lua, decide permanecer em Angola. 







Fotografias: Gonçalo Afonso Dias


RELACIONADOS:
1993 – O Miradouro da Lua (lm) - Prémio especial Realização - Festival Internacional de Gramado, Brasil. Editado em DVD




AS PALAVRAS

São como um cristal,

as palavras.

Algumas, um punhal,

um incêndio.

Outras,

orvalho apenas.



Secretas vêm, cheias de memória.

Inseguras navegam:

barcos ou beijos, as águas estremecem.



Desamparadas, inocentes,

leves.

Tecidas são de luz

e são a noite.

E mesmo pálidas

verdes paraísos lembram ainda.



Quem as escuta? Quem

as recolhe, assim,

cruéis, desfeitas,

nas suas conchas puras?

(Eugénio de Andrade)



Fotografia: Gonçalo Afonso Dias
Luanda, Angola, 2008

As "Boas" e as "Más" notícias



(Fotografia: Gonçalo Afonso Dias)


As "Boas e a "Más" notícias

Quando 2012 principiou, consciente que estava (informado também) que este é, e será, um ano que marcará a História recente de Portugal, achei interessante registar diariamente uma "Boa" e uma "Má" notícia.

Desde logo afirmei que encontrar uma "Boa Notícia", todos os dias, se afigurava como uma tarefa difícil - se não impossível... Tirando o futebol e outras coisas menores, confirmei esse meu pressentimento ao fim de duas ou três semanas.

As "Más Notícias", do meu ponto de vista - claro, sucedem-se em catadupa...

As "Boas", tirando, como referi "a bola", os êxitos das equipas portuguesas nas distintas competições europeias, surgiam, quando surgiam, inquinadas... Pareciam boas notícias, apenas. Tinham sempre um "mas"...

Aconteceram entretanto muitas coisas, nada de especial nem nada de imprevisível.

Portanto, perante os factos, e já cansado desse desiderato, desisti desse propósito.

Só há, verdadeiramente, "Más Notícias" - ponto final.

Aqui darei, já sem essa imposição diária, conta dos factos que me parecerem mais relevantes durante este ano em que Portugal ainda vai mostrando um "sorriso amarelo" - Sol de pouca dura, claro está.

Nesse sentido, acho que devo hoje, voltar às "futeboladas" para assinalar o facto de o Futebol Clube do Porto ter conquistado, a uma jornada do fim do campeonato, o título de Campeão Nacional de Futebol de 2011/2012.



Entendo que não foi (e vi muitos jogos dos vários candidatos) a equipa que melhor futebol mostrou. Foi, para todos os efeitos, a equipa mais regular.

Fico com pena do "meu" Benfica que, ainda há pouco tempo parecia ter agarrado o troféu.

Agora, como sempre, rolam cabeças - a de Jesus é a que tem a senha com o número mais baixo...

Vítor Pereira também não me parece que reúna o consenso necessário para continuar à frente do FCP. A ver vamos...

Por agora deixo, desportivamente, os parabéns ao Porto. Mereceu e soube gerir as "crises" sem grandes estragos.



(Fotografia: Net)


Benfica empata em Vila do Conde, FC Porto é campeão

Publicado hoje às 21:09

O Benfica foi hoje travado pelo Rio Ave (2-2), em Vila do Conde, permitindo ao FC Porto festejar, em dia de folga, o 26º título de futebol do seu historial, a duas jornadas do fim do campeonato.

Veja aqui as melhores jogadas deste encontro.

Para ainda alimentar a ilusão do título, os "encarnados" precisavam de ganhar, mas não conseguiram impor-se, frente a uma equipa lutadora e que ainda não garantiu a permanência.

Atsu (8') deu a liderança aos vilacondenses, mas Nolito (37') e Cardozo (40'), de grande penalidade, selaram a reviravolta antes do intervalo: na etapa complementar, Yazalde (50') estabeleceu o resultado final.

Com seis pontos ainda em disputa, o Benfica soma 63, a seis do FC Porto, que tem vantagem no confronto direto, após 2-2 no Dragão e triunfo 3-2 na Luz.

A defesa do Benfica já tinha dado sinais de alguma desconcentração - mau passe de Garay ia permitindo a Yazalde situação soberana -, quando uma falha de comunicação de Artur Moraes com Luisão custou o primeiro golo.

Baila Comigo !



Fotografia: Gonçalo Afonso Dias
Luanda, 2008

Sunday, April 29, 2012

Escada para o Desespero


Fotografia: Gonçalo Afonso Dias. Luanda 2008




(Kilamba-Kiaxi - fotografia Net)




Escada para o desespero

Esta fotografia não carece de grandes explicações. Assim só e tratando-se de uma imagem captada num bairro popular da periferia de Luanda - Samba - permitiria múltiplas interpretações, todas elas com um sentido humano.

Contudo, tratando-se de fotojornalismo, importa contextualizar minimamente para melhor transmitir o âmbito social e a emoção que esse me provocou.

Esta como muitas casas "clandestinas", foram condenadas à demolição coerciva no âmbito de um qualquer (e desumano) Plano de Reconversão e Requalificação Urbana do Governo Provincial de Luanda (GPL). Um Plano despótico, com razões pouco transparentes e onde as pessoas (na maioria dos casos deslocados de outras províncias na altura da guerra) não viram minimamente assegurados os seu Direitos elementares.

É evidente, para quem conhece o "software" de grande parte da classe dirigente angolana, que os terrenos onde estes bairros cresceram, têm hoje um valor exorbitante...

As casas a abater, como esta, são "carimbadas" por funcionários do Governo, onde constam as letras «GPL» e um determinado nº...




Fotografia: Gonçalo Afonso Dias, Luanda

É a sentença de "morte". Depois, em nome de um Estado que "faz de conta" que valoriza os Direitos Humanos, estas pessoas são deportadas para autênticos Campos de Concentração, na forma de prédios de habitação social (Kilamba-Kiaxi, é só um ex.) e ali ficam esquecidas e desenraizadas dando origem, inevitavelmente a novos "Guetos" férteis para a marginalidade.

Não basta ao Governo anunciar (e executar) a construção de milhares de fogos para realojamento. Importa questionar como isso é feito, com que conhecimento sociológico, com que bases conceptuais. A História recente da construção apressada de "novas cidades" é uma História de Fracassos.



Fotografia: Gonçalo Afonso Dias


O "drama" da sobrelotação de Luanda e mais concretamente do caos e do desordenamento urbano exponencial (Luanda tem já mais de 5 milhões de habitantes) só poderá ser resolvido tecnicamente e planeadamente, com a criação de equipas compostas por especialistas experientes nas mais distintas matérias - arquitectos, engenheiros, sociólogos, urbanistas e gente criativa, despegada do poder e focada exclusivamente no "enigma" a resolver.

Quando não sei. Depende da cultura, da mentalidade e da sensibilidade dos governantes desse fantástico país que, infelizmente, até agora, apenas têm conseguido ver o seu umbigo.




(Uma espécie de Massamá mas para pior...)
Quanto à demagogia da retórica... sem comentários...)




(Massamá, Sintra, Portugal)


POR OUTRO LADO...

Sabe-se, pelo menos em teoria, que existem um (ou mais) protocolos entre a Ordem dos Arquitectos Portugueses (O-A) e a Ordem dos arquitectos angolanos (O-A-A).

O que eu constato, como arquitecto português e simultaneamente arquitecto angolano é que essa desejável relação não passa de ténues intenções e de "flores" da politiquice.

Vivemos numa época em que, dada a evidente crise económica e financeira que se vive em Portugal o que parece importar aos governantes portugueses é o "despejo" dos quadros superiores (arquitectos incluídos - são mais de 40 % no desemprego para os Países Oficiais de Língua Portuguesa, Angola em destaque, claro.

Quando atrás referi o total absurdo conceptual da construção da "Nova Cidade de Kilamba-Kiaxi", não pude deixar de me interrogar sobre as vantagens que teria uma discussão séria e uma cooperação alargada entre os arquitectos portugueses e os angolanos.

Tinha-se ganho muito... Desde logo nas bases estruturais (sociais, evidentemente) da criação apressada e descontextualizada de novas cidades.

Entendo, até certo ponto, que para os governantes angolanos, a prioridade tenha sido numérica e não qualitativa. Os chineses constroem mal mas depressa...

Mas por aqui, e estou em Lisboa, essas questões tão importantes na arquitectura e no urbanismo em particular não tiveram qualquer correspondência.

É triste, para mim, nessa dupla condição que antes referi (angolano e português) ver que o interesse dos portugueses por Angola se limita basicamente a soluções do foro financeiro e económico.

Receio, por outro lado, que a Ordem dos Arquitectos Angolanos, esteja a seguir cegamente o mau exemplo e a praticar os mesmos "crimes" em que a (O-A) é reincidente.

Conheço mal a Ordem dos Arquitectos Angolanos e a Ordem dos Arquitectos Angolanos não só não me conhece, como não tira partido da experiência e da disponibilidade de tantos profissionais, conhecedores da realidade angolana, disponíveis para ajudar à reconstrução do País, capazes de fazer obra e, sobretudo, de formar quadros qualificados.

As cidades angolanas foram, nos anos 50 e 60, sobretudo, um espaço privilegiado para o experimentalismo dos arquitectos portugueses, maioritariamente fugidos ao regime ditatorial vigente no seu país.

Em Angola, de Norte a Sul, a quantidade, a qualidade e a coerência da arquitectura feita nesse período merecia obviamente da parte de Portugal e de Angola, um levantamento rigoroso e exaustivo, um estudo profundo, que consolidasse esse património e servisse de inspiração para o desenvolvimento que se demonstra ano após ano.

Por vezes, e apesar de ter vindo solitariamente a tentar divulgar a arquitectura de excelência feita em cidades como o Huambo, Lubango, Lobito, Benguela e tantas outras, fico com a amarga impressão que não interessa, na verdade, aos "iluminados" arquitectos portugueses a referida divulgação dessas obras e projectos. Talvez, e até pode ser a minha "má língua" a falar, porque aquilo que esses agora fazem, publicam e celebram como "inovações" já lá foi feito (e  bem feito) há algumas décadas.




Edifício Anangol - Arq. Vasco Vieira da Costa, Luanda




"A antiga Porta de Campo Maior"
Fotografia: Gonçalo Afonso Dias



GEOMETRIA



"GEOMETRIA"
Fotografia: Gonçalo Afonso Dias. Oeiras, 04-2012

«Não esquecer que segundo Platão: "Por toda a parte existe Geometria."Euler concordou, dizendo: "Mas é preciso olhos para vê-la."
E Lagrange, dizem, afirmou: "E inteligência para compreendê-la."
E Malba Tahan completou: "E alma de artista para admirá-la.»

Rir (ainda) não paga imposto... Bom Domingo !



Fotografia: Gonçalo Afonso Dias
Oeiras 04-2012

Páginas do meu Caderno








Desenhos: Gonçalo Afonso Dias. Abril 2012



Saturday, April 28, 2012

No Café da Vila



Fotografia: Gonçalo Afonso Dias. Ferreira do Alentejo, 2007


Bom fim-de-semana !



"Lobito". Fotografia: Gonçalo Afonso Dias, 04 -2012

O CORVO


Fotografia: Gonçalo Afonso Dias. Oeiras, 2012




O CORVO 
(de Edgar Allan Poe)

Numa meia-noite agreste, quando eu lia, lento e triste,
Vagos, curiosos tomos de ciências ancestrais,
E já quase adormecia, ouvi o que parecia
O som de algúem que batia levemente a meus umbrais.
"Uma visita", eu me disse, "está batendo a meus umbrais.
É só isto, e nada mais."

Ah, que bem disso me lembro! Era no frio dezembro,
E o fogo, morrendo negro, urdia sombras desiguais.
Como eu qu'ria a madrugada, toda a noite aos livros dada
P'ra esquecer (em vão!) a amada, hoje entre hostes celestiais -
Essa cujo nome sabem as hostes celestiais,
Mas sem nome aqui jamais!

Como, a tremer frio e frouxo, cada reposteiro roxo
Me incutia, urdia estranhos terrores nunca antes tais!
Mas, a mim mesmo infundido força, eu ia repetindo,
"É uma visita pedindo entrada aqui em meus umbrais;
Uma visita tardia pede entrada em meus umbrais.
É só isto, e nada mais".

E, mais forte num instante, já nem tardo ou hesitante,
"Senhor", eu disse, "ou senhora, decerto me desculpais;
Mas eu ia adormecendo, quando viestes batendo,
Tão levemente batendo, batendo por meus umbrais,
Que mal ouvi..." E abri largos, franqueando-os, meus umbrais.
Noite, noite e nada mais.

A treva enorme fitando, fiquei perdido receando,
Dúbio e tais sonhos sonhando que os ninguém sonhou iguais.
Mas a noite era infinita, a paz profunda e maldita,
E a única palavra dita foi um nome cheio de ais -
Eu o disse, o nome dela, e o eco disse aos meus ais.Isso só e nada mais.

Para dentro então volvendo, toda a alma em mim ardendo,
Não tardou que ouvisse novo som batendo mais e mais.
"Por certo", disse eu, "aquela bulha é na minha janela.
Vamos ver o que está nela, e o que são estes sinais."
Meu coração se distraía pesquisando estes sinais.
"É o vento, e nada mais."

Abri então a vidraça, e eis que, com muita negaça,
Entrou grave e nobre um corvo dos bons tempos ancestrais.
Não fez nenhum cumprimento, não parou nem um momento,
Mas com ar solene e lento pousou sobre os meus umbrais,
Num alvo busto de Atena que há por sobre meus umbrais,
Foi, pousou, e nada mais.

E esta ave estranha e escura fez sorrir minha amargura
Com o solene decoro de seus ares rituais.
"Tens o aspecto tosquiado", disse eu, "mas de nobre e ousado,
Ó velho corvo emigrado lá das trevas infernais!
Dize-me qual o teu nome lá nas trevas infernais."
Disse o corvo, "Nunca mais".

Pasmei de ouvir este raro pássaro falar tão claro,
Inda que pouco sentido tivessem palavras tais.
Mas deve ser concedido que ninguém terá havido
Que uma ave tenha tido pousada nos meus umbrais,
Ave ou bicho sobre o busto que há por sobre seus umbrais,
Com o nome "Nunca mais".

Mas o corvo, sobre o busto, nada mais dissera, augusto,
Que essa frase, qual se nela a alma lhe ficasse em ais.
Nem mais voz nem movimento fez, e eu, em meu pensamento
Perdido, murmurei lento, "Amigo, sonhos - mortais
Todos - todos já se foram. Amanhã também te vais".
Disse o corvo, "Nunca mais".

A alma súbito movida por frase tão bem cabida,
"Por certo", disse eu, "são estas vozes usuais,
Aprendeu-as de algum dono, que a desgraça e o abandono
Seguiram até que o entono da alma se quebrou em ais,
E o bordão de desesp'rança de seu canto cheio de ais
Era este "Nunca mais".

Mas, fazendo inda a ave escura sorrir a minha amargura,
Sentei-me defronte dela, do alvo busto e meus umbrais;
E, enterrado na cadeira, pensei de muita maneira
Que qu'ria esta ave agoureia dos maus tempos ancestrais,
Esta ave negra e agoureira dos maus tempos ancestrais,
Com aquele "Nunca mais".

Comigo isto discorrendo, mas nem sílaba dizendo
À ave que na minha alma cravava os olhos fatais,
Isto e mais ia cismando, a cabeça reclinando
No veludo onde a luz punha vagas sobras desiguais,
Naquele veludo onde ela, entre as sobras desiguais,
Reclinar-se-á nunca mais!

Fez-se então o ar mais denso, como cheio dum incenso
Que anjos dessem, cujos leves passos soam musicais.
"Maldito!", a mim disse, "deu-te Deus, por anjos concedeu-te
O esquecimento; valeu-te. Toma-o, esquece, com teus ais,
O nome da que não esqueces, e que faz esses teus ais!"
Disse o corvo, "Nunca mais".

"Profeta", disse eu, "profeta - ou demônio ou ave preta!
Fosse diabo ou tempestade quem te trouxe a meus umbrais,
A este luto e este degredo, a esta noite e este segredo,
A esta casa de ância e medo, dize a esta alma a quem atrais
Se há um bálsamo longínquo para esta alma a quem atrais!
Disse o corvo, "Nunca mais".

"Profeta", disse eu, "profeta - ou demônio ou ave preta!
Pelo Deus ante quem ambos somos fracos e mortais.
Dize a esta alma entristecida se no Éden de outra vida
Verá essa hoje perdida entre hostes celestiais,
Essa cujo nome sabem as hostes celestiais!"
Disse o corvo, "Nunca mais".

"Que esse grito nos aparte, ave ou diabo!", eu disse. "Parte!
Torna á noite e à tempestade! Torna às trevas infernais!
Não deixes pena que ateste a mentira que disseste!
Minha solidão me reste! Tira-te de meus umbrais!
Tira o vulto de meu peito e a sombra de meus umbrais!"
Disse o corvo, "Nunca mais".

E o corvo, na noite infinda, está ainda, está ainda
No alvo busto de Atena que há por sobre os meus umbrais.
Seu olhar tem a medonha cor de um demônio que sonha,
E a luz lança-lhe a tristonha sombra no chão há mais e mais,
Libertar-se-á... nunca mais!

Friday, April 27, 2012

O meu pai teve um !



Fotografia: Gonçalo Afonso Dias

Um Ford Anglia de 1949, impecável, estacionado numa rua do Porto.

« O automóvel como forma simbólica» - "Diz-se que a indústria não nos vende somente um produto, um objecto, mas também uma ideia, um sonho, uma concepção do mundo, um distintivo da nossa condição social para usar na lapela. Uma embalagem de luxo, uma "cosmética" sofisticada para um objecto que se oferece, do mesmo modo que sugere uma apreciação da pessoa a quem a oferta se destina, classifica-nos simultaneamente junto dela. A publicidade tende a fazer-nos acreditar que adquirir aquele determinado tipo de automóvel, um dos objectos-símbolo por excelência , é como pendurar um diploma de curso à porta de casa.

A cilindrada do automóvel, a sua carroçaria, o seu "design" são outros tantos indicativos e mensagens do nosso sucesso no mundo.

E é também isto que a publicidade vende.
No preço "chave na mão" está incluída a aventura romântica, a facilidade da conquista, mas também a eficiência e o valor da técnica, o prestígio, a agressividade, o luxo.

Também em relação ao automóvel, como já vimos em relação a todos os objectos em geral, o pormenor pode ser muito importante. O pormenor da roda e do guarda-lamas, aqui, não é só característico de uma maneira de construir, do estilo de uma época, como, precisamente por isso, descritivo e revelador, que pode ser usado - tal como acontece na fotografia de publicidade, de moda e na reportagem - como expediente linguístico destinado a dar, com grande eficácia comunicativa, a parte pelo todo.»
in: " A Fotografia" - Antonio Arcadi. Edições 70. 







Que se lixe a Crise !



"Que se lixe a Crise !"
Fotografia: Gonçalo Afonso Dias. Oeiras 2012

Thursday, April 26, 2012

S/T


"s/t"
Fotografia: Gonçalo Afonso Dias. Porto, 2007

Estou Cansado



Fotografia: Gonçalo Afonso Dias
Ferreira do Alentejo, 2007


Estou Cansado

Estou cansado, é claro,
Porque, a certa altura, a gente tem que estar cansado.
De que estou cansado, não sei:
De nada me serviria sabê-lo,
Pois o cansaço fica na mesma.
A ferida dói como dói
E não em função da causa que a produziu.
Sim, estou cansado,
E um pouco sorridente
De o cansaço ser só isto —
Uma vontade de sono no corpo,
Um desejo de não pensar na alma,
E por cima de tudo uma transparência lúcida
Do entendimento retrospectivo...
E a luxúria única de não ter já esperanças?
Sou inteligente; eis tudo.
Tenho visto muito e entendido muito o que tenho visto,
E há um certo prazer até no cansaço que isto nos dá,
Que afinal a cabeça sempre serve para qualquer coisa.

Álvaro de Campos, in "Poemas"
Heterónimo de Fernando Pessoa

Wednesday, April 25, 2012

Tuesday, April 24, 2012

Até sempre Miguel !


(Fotografia retirada da net)


Morreu o eurodeputado Miguel Portas

Publicado hoje às 18:29

O fundador e eurodeputado do Bloco de Esquerda, Miguel Portas (MP), faleceu esta tarde vítima de cancro do pulmão, avançou à TSF fonte do partido.

Miguel Portas faleceu esta terça-feira, por volta das 18h00, no Hospital ZNA Middelheim, em Antuérpia.

Em comunicado, o Bloco de Esquerda refere que Miguel Portas «encarou a sua própria doença como fazia sempre tudo, da política ao jornalismo: de frente e sem rodeios».

«Teve uma vida intensa e viveu-a intensamente. Durante toda a sua doença continuou sempre a cumprir as suas responsabilidades e estava, neste preciso momento, a preparar o relatório do Parlamento», destaca o Bloco.

Perfil de Miguel Portas:

Nascido em Lisboa a 1 de maio de 1958, Miguel de Sacadura Cabral Portas, irmão mais velho do atual ministro dos Negócios Estrangeiros, e líder do CDS-PP, Paulo Portas, ganhou protagonismo no plano político no final da década de 1990, mas antes distinguira-se também no jornalismo.


(GAD) : Esta notícia foi, para mim, um violento "murro no estômago".
Morreu precocemente um dos homens que eu mais respeitava na política portuguesa.
Cruzei-me com o Miguel, por várias vezes num bar - O Majong - que ambos frequentávamos no Bairro Alto.
A sua postura humilde, companheira e humana ficou, por isso para sempre , marcada em mim.

Se o Miguel fosse o líder do Bloco de esquerda, em vez do Louçã, eu não teria a menor duvida em apoiá-lo.

A dimensão humana, as preocupações sociais, a palavra, sempre assertiva e ponderada e um carisma muito vincado fizeram do (MP) uma personalidade incontornável da esquerda em Portugal.
O "Destino" é rico em ironias... O Miguel "foi-se embora" na véspera de mais uma comemoração do 25 de Abril ... 
À sua família, aos seus amigos envio os meus sinceros pêsames. O Miguel, como todos os homens "Grandes" nunca ficará esquecido.

Monday, April 23, 2012

O Fascínio da Água




Fotografias: Gonçalo Afonso Dias
Portimão, 2008






Sunday, April 22, 2012

FOTOGRAFIA



"A mão protectora"


"Não te esqueço !

"Alegria"

Fotografias: Gonçalo Afonso Dias
Ilha do Mussulo, Angola, 2007



Saturday, April 21, 2012

O Governo e a Oposição...



Fotografia: Gonçalo Afonso Dias, Sintra

O "Arquivo Morto"



Os arquitectos, de um modo geral, gostam de mostrar as suas obras, os seus sucessos, as suas "habilidades".



Está bem, é natural.



No entanto, quando já se tem uma certa "rodagem", uns largos anos de actividade, uma boa dose de "desilusões", impõe-se, acho eu, uma reflexão séria sobre os motivos de alguns "fracassos".


Penso que é tão importante reflectir sobre os "projectos falhados" como enaltecer aqueles que são conseguidos - e seguidos, publicados, nomeados.

Eu não tenho esse problema - já aqui dei conta, por ex, e um projecto que falhou literalmente - A casa em Santiago - por não ter conseguido a empatia e o envolvimento imprescindível com o "Dono da Obra".

Como quase todos os arquitectos (se não todos) tenho um considerável número de propostas (projectos preliminares) a enrugar no "arquivo morto".

Uns, porque não consegui a empatia tão decisiva, com os desejos e com os sonhos dos "clientes". Outros, porque, pura e simplesmente, "morreram na praia".

Hoje, entendo que não existe esse "arquivo morto". Ficam sempre resíduos, apontamentos, ideias, que mais tarde, imprevisivelmente, renascem e informam outras propostas.

Cria-se uma espécie de "reserva", silenciosa mas omnipresente.

Um desenho, feito com paixão, uma ideia que surge do "aparente nada", constituem um património de relevante valor em "invenções" futuras.

Esta é uma introdução para uma "história" que vivi intensamente e que, hoje, considero exemplar.

Um belo dia, através de um amigo, surgiu-me um cliente "do outro mundo"...


Vivia em Londres, era coleccionador de arte contemporânea, de automóveis antigos e notáveis, excêntrico, divertido.


Tinha, alegadamente, comprado um terreno de sonho (também)... Nas falésias sobre o mar, em Assafora, perto de Sintra.



Tinha um ideal... Uma casa que albergasse a sua colecção de arte, os seus vários automóveis, as suas fantasias...




Convenceu-me a projectar uma casa que se pudesse movimentar (em direcção ao mar), sobre carris. Tinha ideias fantásticas - por ex. um enorme LCD na sala, que reproduziria em "directo" o estado de espírito do Mar, num desejo de o ter dentro de casa...



Envolvi-me nesse projecto e partilhei o entusiasmo e as "loucuras" do meu cliente e, depois, amigo.

No projecto estava também envolvido um companheiro de outras aventuras - o artista plástico João Louro.

Depois dos primeiros estudos, esquissos, e ideias mais ou menos viáveis, o meu amigo deixou de dar notícias...

Vim a saber, mais tarde, que tinha abdicado dos seus sonhos e comprado uma casa, lá para os lados de Azeitão, projectada pelo ilustre e incontornável Tomaz Taveira...

Chegou ainda, insatisfeito que estava, a solicitar-me uma remodelação da dita... Recusei, é claro.

A prática da arquitectura é feita, também, destas histórias. 

Ensinam-nos muito, se tivermos a humildade de com elas aprender. 

Fica sempre alguma coisa. Nem que sejam as fotografias ... e os desenhos.